sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
RECEITA PARA FAZER UM CRONISTA
O interessante é que as histórias vão surgindo, vagarosamente, fluindo de um canto qualquer e brotando na ponta dos dedos. Magia, mistério? Creio que não. A partir do instante em que resolve desenvolver qualquer idéia, muitas vezes que ele próprio não sabe qual é, o autor exercita seu íntimo, onde os casos são arquivados numa mistura anárquica e vai organizando, disciplinando, todo aquele material e fazendo com que sejam trazidas ao papel, para assombro dos não acostumados a brincar com textos, velhas histórias – verdadeiras ou não – criadas, contadas, como se sua capacidade inventiva as estivesse curtindo há mil anos.
Costumo explicar aos curiosos, que a arte de escrever baseia-se na leitura e no exercício da escrita. No princípio, achará que é tudo um monte de tolices, mas com o tempo a tal ordenação se fará presente e não o deixará jamais.
As idéias justificam-se nas observações feitas vida afora e que podem aproveitar do vôo de um beija-flor até figuras que passam por nós, nas ruas. O treino as fará despreocupadamente eternas, embora você nem desconfie disso.
E aí, então, poderá surgir um novo cronista.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
O APAGÃO
Ao chegar ao trabalho, fui informado que estávamos sem acesso a inter, intra e outros prefixos utilizados pela NET. O servidor tinha sofrido uma pane e, eu, passava a sofrer de pânico. Nem um arquivo, agenda cega e muda, mas o telefone que não foi vítima do apagão, trazendo perguntas sem respostas de clientes dos quais vêm o salário nosso de cada mês.
A inatividade gerou idéias improváveis, tais como organizarmos um carteado entre os poucos colegas que tinham conseguido chegar no horário, já que a maioria foi vítima dos semáforos enlouquecidos pela falta dos sistemas que os controlavam, dando um nó no trânsito da cidade.
Nem isso, entretanto, era possível, já que os únicos baralhos por ali, seriam os virtuais que, assim como um monte de joguinhos deliciosos e que fariam o tempo passar, estavam "presos" na tal maquininha.
A solução foi colocar o papo em dia e um pensamento futurista em que um apagão imobilizasse o servidor do Big Brother deste planetinha azul. A bagunça seria apresentada a um povo já então dependente total do mundo virtual.
Ainda bem que ainda me restaram papel e lápis.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
PESADELO
O barulho dos grilos, os rumores das águas de um córrego que não via, o farfalhar das folhas, tudo aquilo que sempre considerava poético inspirava-me uma angústia terrificante.
Procurei inutilmente por um cigarro. Olhei em torno, em vão, tentando identificar entre as sombras, um vulto amigo que me desse atenção. O desespero tomou conta de mim. Levantei-me e corri, arranhando-me nos espinhos e galhos invisíveis da minha loucura.
Finalmente caí. Senti meus lábios febris tocarem em outros que, aos poucos, foram devolvendo a resistência e a vontade de viver ao meu corpo frio. Lutei contra a vontade que me impelia para o abismo do não-sei-onde e, com minhas últimas forças, gritei.
Um grito vindo do fundo do peito que expulsou todo o mal que me cercava e espantou a morte, dama que já podia ser vista no horizonte acinzentado daquele delírio. E assim abri meus olhos. Ainda te beijando, dormi o sono da tranqüilidade, que há muito não conhecia.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
A NOIVINHA
No mundo de compras do enxoval, um sonho específico e carinhoso para cada peça. No telefone que toca, a esperança de ouvir a voz do amado. No travesseiro das noites insones, planos para o futuro.
Sabe que nem tudo serão rosas, mamãe já disse. Sabe que a briga pela sobrevivência não será fácil, sem o papai para pensar por ela. Tem consciência disso, entretanto. Enfrenta a vida, o céu e a morte pela sua realização: casar e ter filhos, ser a dona da casa e do seu nariz.
Sinceramente, invejo sua coragem quase irresponsável, idêntica à dos heróis de capa e espada, de ir em frente na busca de um ideal, nada mais importando para isso. Nós, mais calejados, sabedores dos dramas que a vida reserva na convivência a dois, rezamos para que a quase-menina se imponha a tudo e a todos, sejam quais forem os sacrifícios a serem superados para, com inteligência e o amor que traz em si, manter o mesmo sorriso e os mesmos sonhos que a farão vitoriosa pela eternidade.
Amém.
quarta-feira, 4 de março de 2009
O CONTADOR DE CASOS
Franzino, mas dono de uma possante voz abaritonada, só faltava subir nas mesas que ocupávamos para dar uma teatralidade maior aos acontecimentos narrados.
Ouvíamos num silêncio atento, mas divertido, com direito a, vez por outra fazer perguntas que permitissem ao narrador explicar melhor alguns fatos menos claros e, nesse momento, dava-se a ele a oportunidade de inovar, de crescer ou de omitir algo anteriormente falado e que, muitas vezes, mudava inteiramente o “roteiro” já conhecido pelos ouvintes.
Ninguém ria nem protestava pelas repetições, até porque a cada noite, eram alteradas pela mente inventiva do autor.
Naquela mesa éramos seis que raramente faltavam ao chopinho da sexta, após o expediente. Ele, entretanto, surgira sabe-se lá de onde e quando, para ocupar um lugar entre o grupo de amigos. Ninguém sabia ao certo quem era, pois, além do nome – Macedo – e dos ternos bem talhados, só disser que era casado com uma linda mulher e nada mais.
Eis que certa noite, não apareceu e a partir dali, sumiu. Claro que a ausência foi sentida e nós mesmos passamos a contar suas histórias, acrescentando novos detalhes “colhidos” durante a semana de trabalho e que trouxessem maior encantamento à narrativa.
Foi assim que resolveram escrevê-las e, pouco depois, imprimi-las. A troca de informações via Internet se intensificaram e acabaram por fazê-las circular e serem apropriadas por blogs e “sites” diversos.
Só então tomamos conhecimento da verdade. Eis que numa sexta-feira surge um Macedo furioso. Como todos nós, sua mulher leu as publicações na Internet e “peitou” o marido, única pessoa a quem mostrava seus escritos e que, vez por outra, os “enriquecia” com as modificações surgidas na nossa mesa de bar.
Macedo tinha quase certeza de que seríamos os responsáveis pela divulgação das histórias, embora falsamente negássemos o fato, fazendo cruzes com os dedos sobre os lábios, jurando que dali nada saíra. Virou as costas e se foi. Nós após breve silêncio e numa troca de olhares, explodimos numa gargalhada, tão logo ele dobrara a esquina, lamentando pela pobre escritora que, se quisesse editar suas obras, teria de começar do zero.
No encontro da semana seguinte, após comentarmos o fato e na certeza do sumiço definitivo do nosso narrador predileto, ouvimos um dos companheiros dizer, de forma séria e com o olhar perdido, imitando o estilo do Macedo:
- Pois é, gente... Não imaginam o que me aconteceu ontem.
Foi interrompido por uma estrondosa vaia que definiu, ali, a mudança radical dos assuntos tratados naquela mesa, onde voltaram a imperar os papos que sempre envolvem a conversa de dois ou mais homens num bar: mulheres, mulheres, mulheres.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
PAPO A RESPEITO DA SOLIDÃO
Conheci um jornalista que ao se aposentar, foi morar num apartamento do primeiro andar de um prédio na avenida Nossa Senhora de Copacabana, caminho quase obrigatório de todos os ônibus que saem daquele bairro. A barulheira dentro da casa era terrível e só diminuía um pouco, lá pelas tantas da madrugada. Vivia só e intitulava-se como um "eremita moderno", ou seja, enquanto quisesse estaria trancado naquele apartamento, mas sabendo que a poucos passos - um andar, melhor dizendo - havia toda a população de um bairro que não dorme. Surpreendeu-se quando o chamei de solitário covarde, já que se impunha um "modus vivendi" que, sabia, poderia ser interrompido quando o primeiro sinal de pânico toldasse a tal solidão. Mudou, então, o título para "eremita psicológico" e, rindo, dispensou qualquer comentário adicional que eu quisesse fazer.
A minha sensação é diferente, como se um peito vazio não aceitasse as batidas do coração; do grito dado no cume de uma montanha e que não trouxesse de volta o eco do meu desespero. Estranho, muito estranho... Ouvi uma entrevista com o Ariano Suassuna, na qual ele diz que "nem tudo que existe é crível" e, de repente, familiarizo-me com meus fantasmas que não vejo, mas sinto, e podem de fato existir e fazerem-me companhia nesse momento de desconforto. Presto atenção a um possível vulto que passa por mim, mas que só minha consciência detectou. Será a culpa por algum procedimento anterior, projetado como um "flash" momentâneo; será um pensamento perdido em algum momento da vida dos que circularam por aquela sala e que se fixou ali ou realmente existe e não posso acreditar só porque se apresentou de uma forma diferente da imposta aos que têm a mente presa na dimensão em que vivemos?
Complicado, mas factível. Divirto-me pensando que com ele não irei jogar uma partida de xadrez ou comentar os fatos da semana que passou, porém de uma forma ou de outra, esses novos pensamentos fizeram desaparecer a solidão e antes que outra sensação desagradável se faça presente, vou dormir... Afinal amanhã será outro dia...
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
O BAILARINO
Evidente que o nível dos novos vizinhos, mais tranqüilos e atenciosos, deixava longe o do pessoal da favela de onde tinham saído. Mas não fora esse o motivo da troca de endereço. Dirceu, além de conseguir os dois cômodos por um aluguel muito baixo, passou a ficar bem mais próximo do centro da cidade, onde trabalhava como ascensorista num prédio comercial. Tinha, ainda, o filho Darcy, que podia ir a pé para o Quartel no qual cumpria o Serviço Militar. Ondina com o passar do tempo, certamente conseguiria um emprego de doméstica nas redondezas. Era só esperar que ficasse um pouco mais conhecida.
Darcy foi quem mais aproveitou a mudança. Ali podia usar as roupas que gostava, sem ouvir piadinhas idiotas dos malandros da favela. Esguio, ombros largos, tinha a boca rasgada demais para o seu gosto, mas no resto, até que se evidenciava entre os da sua idade.
Ainda estava naquele período mais duro do Quartel. Os primeiros três meses eram os que os exercícios, ordem unida e a prática de tiro esgotavam as reservas físicas dos recrutas. Depois, sabia, o grupo seria distribuído entre os pelotões e praticamente só faria os trabalhos internos, nos quais os oficiais e sargentos não queriam sujar as mãos. Havia, também, os serviços burocráticos em que se aproveitavam os de melhor nível cultural e, melhor ainda, se fossem bons digitadores. Ali depositava suas esperanças. Já iniciara o segundo grau e aprendera digitação ajudando uma vizinha a fazer trabalhos para alguns escritórios, aproveitando para defender uma grana extra, para seus gastos com diversão, que não tinha coragem de pedir ao pai.
Sabia que estava sendo observado pela Sargenteação, espécie de secretaria do Comando da Companhia, a partir do momento que travou conhecimento com o Cabo Marcos, por coincidência morador próximo do seu novo endereço. Embora evitasse ir e voltar do Quartel em sua companhia – o Cabo não gostava que o acompanhassem nesse trajeto - sempre o encontrava à noite, quando batiam longos papos.
Foi assim que tomou conhecimento da tradição que o Sargento Hélcio estabelecera. A Sargenteação era composta por ele, dois cabos e um soldado, este uma espécie de contínuo do “escritório”. Quando o soldado era promovido a Cabo ou ao dar baixa, indicava outro soldado para ocupar seu lugar. Isso, segundo Marcos, aconteceria no próximo mês de novembro e ele indicara Darcy para substituí-lo, o que justificava a cobrança maior do Sargento Hélcio, exigindo-lhe melhores resultados no período de treinamento pelo qual passava. Não sabia que alguns de seus trejeitos tinham sido observados pelo Sargento:
- Escute, Cabo. Você não acha esse soldado meio esquisito?
- Sargento, eu só acho que o Soldado Darcy, acima de tudo, é competente e atento às ordens que recebe.
- Certo... Só que se der algum ataque de viadagem aqui dentro, vou jogá-lo pela janela...
Todos riram, mas a presença de Darcy na Sargenteação era certa e assim, um mês antes da baixa do Cabo, já estava entre eles, aprendendo os serviços.
Com a saída de Marcos, Darcy passou longo período sem encontrá-lo. Dedicava-se às atividades do Quartel e embora o pai esperasse que ele seguisse a carreira militar, seus sonhos eram outros. Para evitar problemas de convivência com a família e amigos, guardava seus planos de se tornar bailarino em segredo.
Num fim de tarde encontrou-se com Marcos. Este arranjara um emprego muito bom e naquele dia estava recebendo seu primeiro contracheque, razão do convite para que fossem a uma churrascaria.
Jantaram e assistiram ao show onde enquanto ouviam o cantor, bailarinos dançavam num patamar mais elevado, atrás do artista. Incentivado pelas danças e cervejas bebidas, acabou contando seu segredo para o amigo, que o ouviu sem demonstrar qualquer surpresa. Ao contrário, aconselhou-o a procurar um professor ou alguém que conhecesse melhoro assunto, pois achava temerário que Darcy continuasse a se exercitar fundamentado, apenas, no que lia em revistas ou assistia em entrevistas e filmes. Naquele momento se justificava a musculatura desenvolvida dos braços e pernas de Darcy, obtidas em exercícios de alongamento e pesos, mantendo a elasticidade do corpo bem acima do naturalmente exigido e que visava dar-lhe condições de saltar ou sustentar uma bailarina no ar, sem qualquer demonstração de esforço.
Jamais tivera qualquer contato sexual. Tanto mulheres como homens, não o atraíam. Gostava, sim, de observar belos corpos harmônicos e bem trabalhados. Nada além disso. Por outro lado, procurava disciplinar-se e evitar os trejeitos afeminados que, muitas vezes, fizeram-no alvo de chacotas, principalmente enquanto morou na favela, de triste lembrança.
Marcos, sabedor dos sonhos de Darcy, procurou um amigo de seu pai, empresário teatral. Foi recebido calorosamente por Ismael que o conhecia desde criança e contou-lhe os planos do amigo. Conforme esperava, sofreu provocações por parte de Ismael, já que a impressão geral era a de que todo bailarino era homossexual e ter um amigo assim, não seria um bom cartão de visitas.
O importante é ter saído de lá com a carta de apresentação pretendida, endereçada a Neuza, bailarina famosa e diretora de uma companhia de danças. Tudo isso se deu sem o conhecimento do amigo. Assim, quando lhe entregou a carta, viu os olhos de Darcy cheios de lágrimas e seu sorriso rasgar a boca enorme.
Na data combinada, lá estava o rapaz frente-a-frente com Neuza. Mulata como ele, magra e com porte nobre. Leu a mensagem de Ismael como se não soubesse do que se tratava e examinou Darcy dos pés à cabeça, ignorando seu nervosismo. Segurou-o pela mão e levou-o para outra sala, imensa e sem móveis, exceto por um aparelho de som pousado sobre um banco tosco e fez com que se ouvisse um samba. Virou-se para Darcy e disse friamente:
- Vá lá, dance...
E Darcy dançou. Veio depois um jazz e, finalmente uma valsa clássica. O jovem se entregou de corpo e alma aos movimentos que seus reflexos ditavam. Repentinamente a música parou. Viu Neuza com os braços cruzados, olhando-o séria:
- O quê faz na vida, rapaz?
- No momento, nada. Acabo de me desligar do Exército...
Neuza interrompeu a conversa e caminhou na direção do escritório em que o tinha recebido. De costas e com um gesto de mãos, disse:
- Esteja aqui amanhã por volta das duas horas. Não coma nada pesado no almoço. Quero fazer uns testes com você.
Embora nada houvesse de concreto, o convite para retornar aumentou as esperanças de Darcy. Procurou por Marcos, mas não conseguiu encontrá-lo. Queria dividir a sensação de vitória com alguém que entendesse a importância daquele momento. Foi uma longa noite. No dia seguinte lá estava, duas em ponto, enfrentando o olhar sério de Neuza e a curiosidade de dois jovens mais ou menos de sua idade, que trajavam malhas apropriadas para a dança.
- Este é o rapaz de quem falei, disse a mulher para os outros que o olhavam curiosos.
Virou-se em direção de Darcy e ordenou, apontando para a porta onde se lia “Vestiário Masculino”:
- Vá até lá e troque-se. Tem uma malha pendurada. Vista e volte logo.
Pela primeira vez o rapaz se viu dentro de uma roupa daquelas. Justa como se formasse uma outra pele, não permitia que passasse despercebido o mínimo acúmulo de gordura. Imaginou, divertido, o Sargento Hélcio, com aquela barriga de bebedor de cerveja, num traje igual. Voltou sorrindo para a sala onde o grupo o esperava.
Momentos depois fazia exercícios de alongamento nas barras paralelas, acompanhando os movimentos dos outros dois companheiros e com intervenções constantes de Neuza, corrigindo sua postura. O exercício seguinte foi observar a dança dos dois bailarinos e tentar imitar seus movimentos num exercício solo. No momento em que a música parou, recebeu ordens para tomar um banho e retornar ao escritório.
Os músculos de Darcy doíam, o suor lavava seu corpo, mas estava feliz por ter enfrentado aquela experiência. Mesmo que não fosse aprovado, sabia o caminho a seguir.
- Você se saiu melhor que o esperado, disse Neuza. Já tinha alguma experiência com a dança?
Darcy contou-lhe dos exercícios que praticava às escondidas e as poucas aulas recebidas numa escola recomendada por um amigo. Naquele momento iniciava-se a carreira de um bailarino que não considerava a dança como um trabalho, mas como uma missão.
O jovem dedicava-se com um afinco cada vez maior, cumprindo as instruções e ensinamentos recebidos e esmerava-se no quanto podia, a cada gesto ou posição. O dinheiro era pouco, mas ajudava muito em casa, embora o velho Dirceu não apoiasse aquele negócio de filho bailarino. Se não apoiava, também não impedia e assim, Darcy crescia mais e mais.
Vieram as apresentações da Companhia de Danças, as viagens pelo Brasil e pelo mundo. Pode conhecer diversos países e o estudo da língua inglesa, exigido por Neuza como parte integrante da formação de qualquer bailarino, facilitava suas andanças.
Evidente que os preconceitos eram inerentes à profissão escolhida. Raciais em alguns lugares, sexuais em outros e ambos mais adiante. Isso não o incomodava. Sua cor e seu porte nos países nórdicos, por exemplo, promoviam interesse e até excitação por parte da platéia feminina.
Numa dessas viagens, recebeu convite de uma Companhia francesa de prestígio internacional para integrar seus quadros. Relutou, mas foi incentivado pela própria Neuza, entusiasmada com a possibilidade de um futuro brilhante para seu pupilo.
E lá se foi Darcy dançar para o mundo. Embora longe do Brasil por quase cinco anos, enviava suas economias para o pai que, após comprar um confortável apartamento na zona sul, adquiriu outros imóveis em bairros valorizados da cidade. “Afinal”, dizia Dirceu, “a gente não tem cultura, mas não é burro”. Assim garantia para o filho um futuro tranqüilo, quando a vida de bailarino acabasse.
Finalmente, a “tournée” incluiu o Brasil em suas andanças. Passaram por diversas capitais e concluíram as apresentações no Rio de Janeiro. Após conhecer a nova residência a aprovar as excelentes aplicações feitas pelo pai, Darcy aproveitou um momento de folga para procurar pelo velho amigo Marcos.
Afinal, se tudo aquilo estava acontecendo, era graças ao primeiro empurrão dado por ele. Guardava um carinho e uma gratidão profundos pelo amigo e, em seu inconsciente, torcia por poder fazer algo que facilitasse a vida de Marcos. Podia-se, naquele momento, considerar um homem rico.
Chegou à velha rua num táxi e com vestes mais discretas que às de costume, bateu palmas no portão da casa do amigo. Foi atendido por uma senhora que reconheceu como a mãe de Marcos. A mulher não se lembrava dele e com a traquilidade dos conformados, informou-lhe que Marcos morrera atropelado há cerca de dois anos.
Saiu dali em choque. Claro que jamais escreveu ou pediu notícias do companheiro, mas nunca poderia imaginar que acontecesse algo assim... Estava com vinte e cinco anos e Marcos seria, no máximo, um ano mais velho...
Na noite seguinte, deu-se a apresentação final da famosa troupe. Teatro Municipal lotado e Darcy, primeiro bailarino, fez uma apresentação elogiadíssima pela crítica e jamais esquecida pelos que a assistiram.
As lágrimas que escorriam por seu rosto quando voltou para agradecer aos aplausos de uma platéia de pé, poderiam ser entendidas como a emoção do artista que voltava vitorioso ao seu país depois de tantas andanças. Só Darcy sabia que era sua última homenagem ao amigo que se fora, aliás, só ele e Marcos que, tinha certeza, estava sorrindo e o aplaudindo também. De onde estivesse.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
CRISE, QUE CRISE?
- Crise? Que crise, m´eirmão... Tô vendendo minhas bijuterias que nem água... Passou o Natal e, ó, continuo no mermo ritmo. Se bobear, até contrato mais gente pra fabricar as peças.
Numa cobertura no Leblon, bairro de classe média alta (continuo insistindo: por que rico se intitula desse jeito? ) um grupo toma um uísque admirando a lua que reflete sua luz sobre o mar:
- Crise? Até agora não me afetou, diz um deles. Investi certo e nunca dei ouvidos aos “cantos de sereias” que volta-e-meia surgem no mercado financeiro. Dinheiro fácil, da mesma forma que surge, desaparece. Prefiro navegar em águas calmas a surfar em altas ondas. Quem tem equilíbrio e sabe analisar com frieza, não vai se preocupar nunca.
O empregado que serve aos ricaços, é primo do empresário camelô lá de Madureira. É claro que chega à conclusão de que a tal crise não passa de uma babaquice de um monte de otários espalhados pelo mundo.
Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Na verdade, muita gente séria aconselhada por seus agentes financeiros, viu nas propostas dos bancos bons investimentos cujas bases, entretanto, inexistiam e desabaram quando a verdade apareceu.
Afinal, eram ofertas de negócios de que a metade do mundo aceitou entrar e jamais poderia deixar de levar em conta o passado de seriedade e a segurança de tais instituições. Quando veio a derrocada, fortunas se tornaram pó.
E agora, para onde vai o mundo? As notícias são terríveis para as grandes potências e nem tanto assim para o Brasil, seguindo os analistas e o próprio Presidente Lula.
A nós, humilde maioria da população, nada há a fazer se não deixar o tempo passar e torcer para que nossos empregos se mantenham incólumes ao desespero que nos chega através das notícias da TV.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
O DESASTRE
Mas o quê fazia ali parado? Como não se machucara no violentíssimo acidente? Nem um arranhão. Sequer amarrotara a elegante camisa esporte que usava pela primeira vez. Tenta se aproximar, mas as pernas não obedecem. Fica, ali, assistindo os soldados do Corpo de Bombeiros retirarem um corpo do meio daquela lataria disforme. Êi, aquele corpo era o dele. A ficha caiu rapidamente: “Morri... Ih, cara, eu morri...” Disse para si.
Não teve pânico e não viu luz alguma ou qualquer anjo vir recepcioná-lo, como sempre aprendera que aconteceria quando passasse “desta para uma melhor”. Corrigiu: “Daquela para esta aqui...”
Recuperara os movimentos e andava entre os que trabalhavam nos destroços . Só não conseguiu olhar para seu próprio corpo, nessas alturas sobre uma maca e coberto por aquele plástico preto que usam para esconder os cadáveres da curiosidade pública.
Levantou a cabeça na direção do céu, na esperança de ver algo que indicasse o caminho a seguir. Nada. O jeito era acompanhar o corpo, fosse para onde o levassem. Instituto Médico Legal. Nada de bom viu por ali. Corpos nas geladeiras acompanhados pelos que deviam ser seus espíritos, recusando-se a abandona-los. Batiam os queixos e se encolhiam de frio com a temperatura abaixo de zero graus naquelas gavetas. Ele não; ficavam como se paralisados; ele andava por ali embora não procurasse nada.
Eis que chega sua mulher para reconhecer o corpo. Engasga num soluço quando descobrem seu rosto. Afunda a cabeça no peito do pai – seu sogro – que deveria estar exultante com sua morte. Afinal, não gostava mesmo dele. Passou por sua cabeça a possibilidade de dar um susto naquele velho chato, mas não sabia como fazê-lo.
Dali para um velório de luxo – pelo menos estavam gastando seu dinheiro de forma a lhe prestarem uma última homenagem - onde a mulher acabou trocando o ombro do pai pelo do... Epa! Aquele cara é o Dida, namorado dela antes de se conhecerem... E que liberdade era aquela, de cabecinha no ombro e o troglodita alisando seu braço. Será que já havia alguma coisa antes da morte dele? Chegou mais perto e ouviu uma frase definitiva: “Calma, meu amor, dizia o Dida, agora que ele se foi, pode contar comigo definitivamente”.
A raiva era tanta, que deu um grito daqueles, tirados do fundo do peito. Foi aí que acordou. A mulher, assustada, sentada na cama a seu lado e ele com a camisa do pijama empapada de suor.
- O que foi, querido... Disse ela... Foi um pesadelo?
A resposta veio imediatamente:
- Espero que tenha sido, sua...Sua... Falsa.
Deitou-se novamente e rapidamente adormeceu, enquanto a mulher, com os olhos arregalados, perdeu o sono, definitivamente.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
FAZ MUITO TEMPO
Lembranças inexplicáveis retornam, sem razão alguma que as motivasse. Simplesmente surgem. Mostravam-no ainda um menino e os que estavam à sua volta, somente imagens embaçadas. Só aquela figura se fazia clara e bem definida. Severa, mas dona de uma suavidade única para conversar com as crianças para as quais dava aulas na velha escola suburbana.
Era quieto, terrivelmente disciplinado, mesmo para os tempos em que a educação que lhe era imposta ainda guardava resquícios do século XIX. Temeroso e submisso granjeava a simpatia dos que com ele conviviam até aquele dia, onde alguma coisa mudou e o fez mais respeitado entre os companheiros de turma.
A própria professora, que lhe volta à mente, passou a ter um outro olhar para o garoto que, momentos antes, era o exemplo sempre citado, não só pelas notas acima da média, mas também pela quietude e mansidão.
Foi uma explosão momentânea, onde a personalidade contida pelas imposições familiares, veio à tona surpreendendo todo mundo. Ali aprendeu o significado do velho ditado: ”Não cutuque onça com vara curta”. Afinal, não podia admitir que fosse interpretado como um covardão sem personalidade sujeitando-se a qualquer coisa que lhe impusessem. Ninguém ainda sabia, mas uma atitude dessas contra ele era um terrível equívoco. Após uma discussão sem a menor importância, um atordoante tapa no rosto e a reação imediata. Não sabia lutar, mas aprendeu ali; nunca brigara com alguém, mas a fúria da reação parecia desmenti-lo. Com um soco cuja potência até ele mesmo duvidava, jogou o oponente por terra e bateu, chutou, cuspiu, até que um adulto, não se lembra quem, conseguisse retira-lo de sobre o corpo do outro menino, em tese maior e mais forte que ele, nessas alturas assustado e com vistosas escoriações e hematomas que começavam a se formar.
Levados à presença da Diretora, a “vítima” assumiu sua culpa, até porque diversos alunos amontoavam-se na porta do Gabinete, prontos a darem seus testemunhos contra ele. O jovem oponente era conhecido por atos de valentia e delinqüências extemporâneas. Sua derrota fazia desabar o mito construído graças às violências contra outros colegas.
Após ouvir as severas reprimendas da velha senhora, o novo herói da garotada voltou à sala de aula, já que o tempo de recreio se extinguira há muito. Recebido por um silêncio tumular e o sorriso de conivência e admiração de alguns, encaminhou-se até a professora com o intuito de se desculpar, porém ela não deixou que falasse e dirigiu-se à turma de forma eloqüente.
Sem incentivar diretamente seus atos de minutos antes, chamou a atenção da turma para que se sentissem fortes nos momentos da vida onde isso era exigido; da rigidez de atitudes que demonstrassem personalidade e segurança. Enfim, sem aplaudir diretamente a reação do aluno, fez dela o exemplo para entenderem a necessidade de imporem suas razões e motivos nos momentos oportunos.
Passou-se algum tempo e chegou ao conhecimento dos pais dos meninos que a professora, dias após esses acontecimentos, desquitara-se. Teria de enfrentar uma sociedade preconceituosa a respeito de mulheres separadas, mas o fez. Só muito tempo depois, soube-se que dissera ter aprendido com um aluno o momento em que o amor próprio não poderia ser esquecido.
Uma criança dando exemplos de vida ao adulto. Pensando bem, quantas não foram as vezes em que em nossas vidas fatos semelhantes não nos levaram a tomar decisões através de soluções trazidas por elas?
A vida corre, a recordação torna e, de uma forma ou outra, fica a história que traz uma mensagem efetiva. Bem vinda, portanto, a volta de tais imagens dos velhos tempos da escola primária.
domingo, 19 de outubro de 2008
O CRAQUE
Titinho, cujo nome de batismo era Alberto e ninguém sabia onde e quando surgira o tal apelido, sempre foi o melhor aluno da turma. Do primário ao vestibular sempre ostentando medalhas douradas, distinção dada aos mais aplicados. Passou para a faculdade de engenharia no primeiro lugar, o que lhe rendeu entrevistas nos rádios e jornais da cidade. Respondia a todos com a mesma falsa modéstia: “Sei lá... Acho que foi pura sorte”. Noites de sono perdidas, exercícios exaustivamente repetidos, livros lidos e relidos e, no final, “pura sorte”. Além de “nerd” era um chato.
Falava com o rosto quase colado ao do ouvinte, muitas vezes obrigando a “vítima” a dar um ou dois passos para trás; arrumava o colarinho do uniforme dos colegas enquanto discorria sobre assuntos longos e sem qualquer interesse. Sua comida era escolhida com atenção pela mãe, já que detestava tudo que os outros familiares adoravam e por aí tocava sua vidinha sem sal.
Mas nos tempos de garoto, Titinho também tinha suas frustrações. Adorava futebol, mas só conseguia jogar quando a bola era dele. Fora isso, apenas se algum dos meninos saía mais cedo e, mesmo assim, era imediatamente deslocado para o gol, lugar nacionalmente guardado para aqueles cuja capacidade de jogar são consideradas nulas pelos demais atletas.
Chegava sempre em casa muito suado, jogando ou não, já que torcia contra os dois times, enquanto amargava a reserva.
Vez por outra, o time da rua disputava partidas em campos espalhados pelos bairros próximos. Na estação do Sampaio, naqueles tempos de um Rio de Janeiro menos explorado demograficamente, lá do outro lado da linha férrea, existia uma grande área onde os campos ficavam uns ao lado dos outros. Ali se pagava aluguel para usá-los e a garotada juntava as economias para participar da festa. Titinho sempre estava entre eles, mas via de regra, ocupava a posição de reserva do goleiro.
Aproveitando as férias escolares do meio do ano, havia um torneio entre as equipes de diversos bairros. Coisa chique, com os atletas uniformizados, de meias e chuteiras. Os juízes escalados pertenciam à Federação e, diziam, muitos olheiros de grandes clubes assistiam às partidas procurando identificar novos valores para o futebol carioca.
Havia, também, grande movimentação de familiares, principalmente nos jogos dos fins de semana, orgulhosos pela participação de seus filhos, sobrinhos e netos queridos. Afinal, eram eles quase sempre os financiadores dos uniformes, aluguel dos campos e, até, do lucro que ia para o bolso de alguém.
Aquele mês de julho tinha sido particularmente desagradável. Choveu muito e o frio fora exagerado para os padrões cariocas. Se os moradores da cidade do Rio de Janeiro já se agasalham com temperaturas abaixo dos vinte e poucos graus, imaginem com os termômetros marcando inusuais quatorze, quinze graus. Só faltavam surgir botas para neve e os esquis. E foi sob esse clima que transcorreu o campeonato.
O time da velha rua, se não era o pior também não poderia ser colocado entre as equipes que se destacavam, como às do Campo Grande e a do Serra Negra, sempre disputando entre si os primeiros lugares. As chuva e os campos enlameados, acabaram por nivelar “por baixo” as disputas e, assim, a equipe de Titinho, reserva do goleiro, foi indo. A semifinal contra o Campo Grande terminou com o escore de um a zero surpreendente, colocando a turma da rua para enfrentar o Serra Negra, que encaçapara seis gols no último adversário, na final a ser realizada no domingo seguinte.
Todos sabiam que o Serra Negra era uma equipe organizada por um bicheiro lá dos lados da subida da Serra de Petrópolis e que tinha, até, treinador remunerado. Segundo as más línguas, os jogadores também recebiam uma “ajuda de custo” e, dali, já tinham saído craques para os times da primeira divisão. Para aquele jogo, Bocão, o tal bicheiro, estabeleceu concentração. Alugou um sítio pelas bandas de Xerém e lá ficaram os componentes da equipe, incluindo o próprio Bocão, figura pouco presente nos treinamentos, embora mantendo sempre por perto um de seus homens de confiança.
Finalmente chegou o domingo que, para variar, estava chuvoso e com um vento frio soprando forte, principalmente no descampado formado pelo conjunto de praças esportivas do Sampaio. A torcida do Serra Negra lotou um ônibus, enquanto os familiares do time de Titinho, postavam-se do outro lado do campo, intimidados pelas bandeiras e ferozes gritos de guerra da torcida adversária. Bocão, com o tradicional colar de ouro de um dedo de grossura, charuto na mão e sob o guarda-chuva que um de seus auxiliares segurava e o acompanhava em todos os seus movimentos, evitando que um só pingo caísse na camisa ou nos óculos escuros do chefe, lá estava. Postado à beira do campo, na linha que divide o centro do gramado, falava mais que o próprio técnico.
Para o timinho da rua, já era uma vitória ter chegado às finais do torneio e, agora, era só armar um bom esquema defensivo para perder de pouco.
O jogo começou e se não fosse a lama, que provocava escorregões e quedas ridículas – inclusive do juiz – e o Serra Negra teria imposto uma considerável vantagem no primeiro tempo, que acabou zero-a-zero.
A partida já ia pela metade do segundo tempo, quando o goleiro Batista, que defendera tudo até ali, quebrou o dedo mínimo da mão direita, tendo sido levado imediatamente para o hospital, no carrão cedido pelo bicheiro. Um ar de desânimo tomou conta de todos, quando Titinho entrou em campo, vestido de preto, após um grotesco aquecimento.
Reiniciada a partida e para alívio dos rapazes do time da rua, o Serra Negra arrefeceu um pouco, dando tempo para que respirassem. Mas aos trinta e cinco minutos, ouve-se um grito. A voz grave de Bocão anunciava: “Tá na hora, gente... Todo mundo pra frente!
Ali começava um intenso bombardeio contra o gol de Titinho. Felizmente a pontaria dos atacantes do Serra Negra não estava boa e as bolas que chegavam até ele, eram fracas, amortecidas pelas poças d’água ou atrasadas por seus próprios defensores.
Faltando menos de cinco minutos para o final, o centro-avante dribla dois zagueiros e parte com a bola dominada na direção do gol de Titinho.
- Sai, vai nele!
O rapaz, indeciso, finalmente resolveu sair de encontro ao adversário. Três ou quatro passos e escorrega na lama. Com a impulsão, sentiu seu corpo voando para a frente, enquanto o atacante enchia o pé. A torcida exultou. A bola explodiu no peito do goleiro e voltou para o meio do campo. Titinho, com o peito ardendo, voltou para o gol ouvindo um impropério de Bocão e gritos de “dá-lhe garoto”ou “beleza”dos companheiros. Pouco depois o jogo acabava e o resultado seria decidido na cobrança de pênaltis.
Cinco chutes para cada time. O primeiro a marcar foi o pessoal da rua. O Serra Negra empatou. Novo gol da meninada e outro empate do “Serra”. Aí deu-se o milagre. Após o terceiro gol de seu time, Titinho resolveu ficar imóvel no próximo chute, fazendo, apenas, o popular “golpe de vista”. Até ali sempre se atirara para o lado errado, chafurdando na lama. Que se danassem todos. Estava molhado até na alma e eles que fizessem o que bem entendessem. O tal centro-avante, aquele do chute forte, soltou seu petardo bem no centro do gol, na direção do peito de Titinho, que só ouviu o barulho e, novamente, a ardência do couro batendo na pele. Lá foi a bola, de novo, parar no meio do campo.
A meninada passou a acreditar na possibilidade de uma vitória, embora Titinho efusivamente festejado pelos companheiros, continuasse a repetir: “Foi pura sorte...”
Novo gol da turma da rua. Era uma questão de vida ou morte para o time de Bocão. Se errassem a próxima penalidade, o campeonato estaria perdido. Zunim, o “becão” do Serra Negra, ajeitou a bola e olhou para Titinho como se dissesse: “Quero ver se agarra essa...” Tomou uma grande distância e partiu. O goleiro, naqueles poucos segundos, pensou: “Finjo que vou para a esquerda e me atiro para a direita”. Só não contava que a lama fizesse seu pé falsear e o fingimento tornar-se real, fazendo-o cair para a esquerda. Um salto, diríamos, milimétrico, mas o suficiente para a bola ficar presa entre seu corpo e o chão. Sua equipe ganhara o torneio graças a ele.
Foi carregado em triunfo e recebeu uma medalha a mais, como o “jogador revelação do campeonato”. Lá pelas tantas, um sujeito entregou-lhe um cartão:
- Se quiser fazer testes num time grande, é só me procurar... Você tem futuro, garoto.
Agora Titinho tinha uma história com comprovantes: medalhas, fotografias e troféu. Nunca mais pediu para jogar, embora sempre convidado. Não queria quebrar o encanto daquele momento glorioso que, sabia, jamais iria se repetir.
Assim, sempre que podia, contava a história para o primeiro desavisado que aparecesse, sem esquecer dos mínimos detalhes de tudo o que acontecera, concluindo sempre com a tradicional “modéstia”:
- Sei lá... Acho que tudo foi pura sorte...
Era um chato.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
MEU BRASIL BRASILEIRO...
“Peraí, não empurra porque minha marmita vai entornar...”
Houve breve silêncio, seguido de um murmúrio crescente, que se tornou uma gargalhada geral. A partir daquele momento, o terror diminuiu e em passos coordenados, a multidão começou a descer e todos alcançaram a rua.
Botequins guardam vastíssimo corolário de frases e verdades aleatoriamente ditas. Num deles, havia um quadro pendurado na parede azulejada, onde se lia:
“Aqui, após a terceira dose, todos os problemas do país são resolvidos.”
Um bêbado, desafiando a lei da gravidade e equilibrando o corpo para trás num ângulo de quase quarenta e cinco graus, na porta de um desses “estabelecimentos”, declarava em alto e arrastado som:
- O Brasil tem como exportar eternamente, jogadores de futebol e gente corrupta.
Engraçado? Talvez, mas verdadeiro. Quanto aos quase garotos, agora identificado por “olheiros” do futebol europeu nos campos de várzea interioranos, nada a acrescentar. Cada vez mais vemos e ouvimos falar de figuras e nomes desconhecidos brilhando no Velho Continente, muitos já naturalizados e podendo disputar campeonatos pelas seleções dos países que os adotaram.
E quanto à gente corrupta? Depois de anões, mensalões, sanguessugas e quantas outras denominações dadas aos escândalos políticos dos últimos tempos, podemos encarar de forma mais séria a afirmação do bebum.
Um velho político afirmou em conversa informal da qual meus ouvidos participavam, estar a corrupção de tal forma enredada no poder público, que se puxarmos um fio da “teia”, digamos, numa estatal, poderemos fazer “desabar” um Ministério lá do outro lado da praça dos ditos cujos em Brasília, que nada teria a ver com a função da tal estatal.
Somos um país que tem a corrupção em seus alicerces. Se o Bispo Sardinha, aquele literalmente comido pelos índios, acumulou fortuna cobrando dobrões de ouro para absolver os pecados dos que podiam, pagar, ainda nos primórdios do nosso Brasil varonil, o que não imaginar dos que administram fortunas em investimentos governamentais? Esse é um assunto que poderia encher páginas, nada mais surpreendendo ao sonolento leitor, infelizmente já acostumado com isso.
Difícil acabar com a corrupção? Muito, já que se não for um movimento de grande parte da sociedade, haverá sempre a possibilidade da ação coerciva de autoridades desonestas, pulverizando os que levantaram suas vozes. Exemplo? Lá vai:
- Um empresário forçou o flagrante do pagamento de propina a determinado fiscal. Jornais e TVs mostraram a notícia. Passado menos de um mês, TODOS os órgãos fiscalizadores municipais, estaduais e federais, se abateram sobre o honesto e otário empresário que até hoje, briga na Justiça contestando a chuva de multas arbitrárias daquela época.
E lá vamos nós elegendo novos mandatários sem saber se, um dia, alguém com uma piada igual a do rapaz descendo do prédio em chamas, provoque uma reorganização social espontânea que acabe com esse tenso e vergonhoso estado de coisas.
domingo, 21 de setembro de 2008
SETEMBRO FRIORENTO
Aproveitam os profetas do apocalipse para declarar tais desarranjos climáticos como mais um sinal das hecatombes que nos esperam até que cheguemos na primeira esquina do ano de 2012, apontado pela equalização dos calendários maias, astecas, egípcios, fenícios & Cia. Ltda., como o ano que todos indicam ser o último da era humana na face da Terra.
Curioso, verdadeiro, fantasioso... Sei lá e não vou me preocupar com esse final dos tempos, se uma bala perdida ou um avião com o reverso travado, não deixar que chegue vivo até lá para saber se vai ou não acontecer.
Daí que uma sonora gargalhada na frente de um chope gelado e da porção de fritas quentinhas, faz com que nos esqueçamos dessas tolices, desde que, é claro, o calor volte a enfeitiçar as noites e provocar justas reclamações, entre um gole e outro.
Por enquanto, frio e caldo verde. Que chatice.
domingo, 31 de agosto de 2008
CAMINHADA
Ignoro o vento frio vindo do mar e continuo minha caminhada em direção à coisa nenhuma, que deve ficar ali por volta do princípio do Leme. Esse negócio de andar como exercício, se não fizer bem ao corpo o faz para a mente. Esqueço os problemas e se me perguntarem o que penso enquanto ando, certamente não saberei responder.
Vai daí que entre um atlético corredor e uma velhinha dentro da malha vermelha contrastando com seus cabelos – e tênis – brancos, vou chegando ao final da caminhada. Cansado? Nem tanto. Um pouco frustrado, talvez, pela juventude que se foi, mas é lembrada a todo instante pelos que passam – ou ficam – pelo caminho.
Atravesso a rua e volto para casa, onde a vida retornará ao seu rumo, até que nova caminhada se inicie.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
NADA A DECLARAR
(vancorreia.blogspot.com)
Nada a Declarar.
Reticências, pontos parágrafos ou não, nuvens pesadas que irão desabar sei-lá-aonde, trazendo risos ou choros aos mais necessitados.
Nada a declarar.
Crianças descalças, lavando os pés na água da sarjeta, enquanto mendigos exclamam frases sábias que os livrem de banhos desgastantes.
Nada a Declarar.
Businas acordam os de andares mais baixos e avisam se iniciar um dia de trabalho ou o marasmo para uma população neurótica, caótica, apostólica, mas que acredita em espíritos, cujos divans dos psicanalistas encheria caso houvesse dinheiro para isso.
Nada a Declarar.
Nossos atletas voltando do Cubo D’Água, com poucas medalhas, mas com muita vontade de cometer grandes pecados intitulados de carboidratos, gorduras saturadas e afins.
Nada a Declarar
Serginho Malandro, candidato a vereador, assim como Havanir, dermatologista e mestra em Photoshop, exibindo seu rosto impecável em website produzido para sua eleição, da mesma forma que os sanguessugas processados, mas liberados pelo Supremo para continuarem a perpetuar a desonestidade em nome de um povo maltrapilho e ignorante.
Nada a Declarar.
Balas perdidas que encontram cabeças, peitos; risos bêbados que encharcam as madrugadas com a tolerância zero da lei que não se sabe se vai pegar... Pega o ladrão, o ônibus, a vizinha bonita, o caixote na feira... Pega o bonde da vida e toca em frente.
Nada a Declarar...
Dercy Gonçalves chegando ao céu, perdida sem seus palavrões e decepcionando anjos e querubins, ávidos pela libertinagem e devassidão que só conhecem das lendas..
Nádegas a Declarar..
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terça-feira, 19 de agosto de 2008
O BRUXO
Otaviano era um menino só. A mãe não permitia que descesse para brincar com as crianças na rua e nenhum moleque se aventurava a subir a escadaria. Supria a falta de amigos com sua imaginação fértil. Fazia bonecos de papel retorcido, que podiam ser “cowboys” ou bandidos nas aventuras engendradas; as armas utilizadas pelos personagens, eram pequenos pedaços de arame que faziam as vezes de revólveres, espingardas ou espadas, de acordo com as exigências da história.
Otaviano cresceu e durante a vida escolar, sempre foi um aluno mediano e quando aprovado no vestibular para uma faculdade pública de medicina, surpreendeu a todos. O pai fazia o impossível, mas os livros e materiais caríssimos exigidos pelo curso, obrigaram o rapaz a dar aulas de matemática, física e química para alunos do curso médio em dificuldades com aquelas matérias, ajudando nas despesas trazidas pela faculdade. O sucesso foi tanto, que passou a substituir um amigo, professor de pré-vestibular, quando este precisava faltar.
Conseguiu a residência médica graças a um colega, filho de político famoso, que sugeriu seu nome para a vaga recebida de presente, face ao desinteresse em “viajar” até aquele hospital suburbano. Depois de muitas suturas, partos e colocação de ossos em seus devidos lugares, viu-se médico. Alugou um sobrado próximo de casa e começou atendendo os clientes que pouco a pouco surgiam, além dos chamados noturnos onde as famílias com certa habitualidade, não tinham sequer como pagá-lo e ele ainda as ajudava dando amostras grátis dos remédios receitados, recebidas dos representantes de laboratórios que o visitavam.
Seu jeito carinhoso e brincalhão, cativava mais clientes e chegou o momento em que assumiu as despesas da casa, aliviando o orçamento dos “velhos” e até conseguiu comprar um carro de segunda mão. Tinha uma vida razoavelmente tranqüila, onde as moças surgiam e desapareciam para alívio do pai e preocupação da mãe, interessadíssima em vê-lo dando-lhe um neto, já que a irmã casara e viajara para o fim do mundo, em companhia do marido, engenheiro de barragens.
Certa manhã, enquanto tomava seu café, a velha empregada que o conhecia desde menino, quando ainda trabalhava para outra família vizinha, o interpelou:
- Tavinho, é verdade que você é espírita?
O rapaz surpreendeu-se e rapidamente passou por sua mente a divertida história ocorrida no passado, quando convencido por um colega foi visitar uma Casa Espírita. Lá para as tantas, a mulher sentada ao seu lado “manifestou um espírito” e deu sonora gargalhada. O susto foi tamanho que quase foi parar no colo do amigo.
- Quem... Eu?
- Estão dizendo por aí que você já sabe até qual a doença do paciente, mesmo antes dele sentar na sua frente; que distribui remédios de graça... Eu, heim, se continuar assim nunca vai ficar rico...
A última frase já foi dita como se pensasse alto, enquanto Otaviano rumava em direção ao sobrado ainda comendo um biscoito. No caminho, surgiu-lhe a idéia. Iria testá-la, só por divertimento, nos seus clientes daquele dia e aguardar se haveria alguma reação.
Quando o primeiro consulente entrou na sua sala, encontrou-o com os olhos fechados e as mãos apoiando a testa. Com um gesto quase teatral, mandou que a “vítima” sentasse, abaixou os braços cruzando as mãos e olhando fixamente para o desconfiado cliente. Com voz pausada e tranqüila, descreveu todo o quadro clínico, os remédios tomados e até os efeitos colaterais eventualmente atribuídos aos mesmos. Evidente que tudo constava da ficha médica e fora minuciosamente examinado antes da entrada do pobre coitado. E assim procedeu durante o resto do dia. Com aqueles que o visitavam pela primeira vez, deixava que contassem o motivo da ida até ali e caso fosse comentado alguma coisa sobre os remédios eventualmente receitados por outro médico, lá vinha a mesma cantilena dos efeitos colaterais que poderiam estar sentindo. Segundo seus cálculos, o índice de acerto chegou próximo aos oitenta e cinco por cento e, por isso, resolveu continuar com a brincadeira.
Teve de contratar mais uma recepcionista e em pouco tempo comprava novo conjunto de salas em bairro mais condizente com o padrão dos novos clientes que começaram a procurá-lo em grande número. Deixou de ser apenas o médico para se tornar um orientador, guru e até bruxo, já que continuava a medicar os que necessitavam de seus trabalhos. Aprendeu a ouvir mais e manter silêncio em momentos onde era esperado seu pronunciamento. Frases de efeito como: “ Dê tempo ao tempo e tudo ficará mais fácil de se resolver...” eram usadas e absorvidas pelos que o cercavam, como se fossem gotas de sabedoria.
Cada vez era mais procurado, porém não se sentia feliz. Passara a ser vítima da própria armadilha, porém ganhava muito dinheiro com isso. Seu novo apartamento de frente para o mar e decorado por nomes famosos, servia de abrigo para noites mal dormidas onde procurava uma solução que acabasse com aquela depressão. E ela não se fez esperar. Certa tarde recebeu a visita de um representante da Justiça, que lhe trazia a intimação onde havia denúncia de “exercício ilegal da medicina”. Compareceu à Delegacia Policial acompanhado por dois famosos advogados e ali provou ser médico registrado e apto a dar consultas e prescrever medicações.
Os jornais noticiaram o fato, o Conselho Regional de Medicina fez uma sessão em desagravo ao médico injuriosamente constrangido e... Os clientes desapareceram. Acabara o encanto. Afinal ser consultado por um médico qualquer um podia, mas a graça era em ter um bruxo como conselheiro e cujas receitas fossem consideradas “beberagens” por aquela pequena multidão de novos ricos...
Tinha se resolvido o problema que o acompanhava. É claro que as dadivosas fontes de renda secaram, mas o que ganhara permitia tocar a vida sem maiores preocupações. Foi assim que semanas mais tarde, vendia as suntuosas instalações do consultório e reabria o velho sobrado suburbano, onde, feliz, brincalhão e sem quaisquer “disfarces”, observou os antigos clientes voltando.
Se concluíra um ciclo de vida, não podia afirmar, mas não tinha mais qualquer sonho de grandeza que o levasse além daquilo para o qual se preparara por tantos anos. Ser Médico.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
O CAMELÔ
Contar sua vida foi o primeiro passo para integrá-lo, já que mostrava um nível cultural muito acima daqueles que, como ele, anunciavam e vendiam objetos e alimentos nas areias e proximidades da praia. Incentivado pelo silêncio dos que o escutavam, relatou sua história.
Certo dia, há mais de trinta anos, estava em sua mesa numa multinacional, quando percebeu o reflexo do sol nos vidros do prédio, no outro lado da rua. Tomado por uma angústia que nem ele próprio explicaria, pegou o paletó e saiu, sob os olhares interrogativos dos demais funcionários.
Causou curiosidade aos freqüentadores, aquele homem de gravata, calças arregaçadas, com o paletó e sapatos nas mãos, deixando a espuma salpicar as pernas, enquanto andava na praia. Sentou-se na areia e fixou o olhar no horizonte, onde uma linha tênue separava o céu do mar.
O quê fizera da vida até ali... Quais seus planos para o futuro... A resposta se resumia a uma palavra: NADA. A família, pai, mãe, irmãos, não passava de um amontoado de gente que mal se falava durante as refeições e desde que cada um colaborasse com as despesas no final do mês, nem era notado. Nada sabiam a respeito uns dos outros.
Aquela noite dormiu na praia e enquanto o dinheiro de sua carteira não acabou, alimentava-se nos botequins da região e se integrou a um grupo de vendedores das areias. Em pouco tempo fazendo uso de sua experiência, já liderava a turma e começou a sugerir modificações no “modus operandi” dos vendedores. Suas idéias foram bem-vindas e logo alugavam informalmente um depósito para guardar as mercadorias no fim do dia, acabando com os buracos feitos na areia, onde escondiam os materiais até a manhã seguinte; instituiu o uso de uniformes para poder diferenciá-los de outros camelôs que eventualmente “invadissem” a área e em menos de um ano, recebeu proposta para gerenciar um pequeno mercado, cujo proprietário observara suas atividades no “comando” daquele grupo, em princípio tão heterogêneo.
Dali para uma organização maior foi um pulo. Em alguns anos já ocupava posição de mais destaque que àquela abandonada quando funcionário da multinacional. Surpreendeu-se, um dia, com a vista sendo ofuscada pelo sol na vidraça da janela da enorme sala que ocupava. Voltara ao princípio, pensou, só que agora tinha mulher e filhos, sérios empecilhos para atitudes drásticas. A sensação de insatisfação o acompanhou pelos anos seguintes, até que os meninos, agora homens, tomassem seus próprios rumos e a mulher morresse.
Esse foi o momento da nova virada de mesa. Viu-se, novamente, à beira da mesma praia e do mesmo mar salpicando-lhe as pernas. Já não era mais aquele jovem, mas arrogava-se ao direito de tentar um recomeço.
Ali estava contando isso tudo, quando um dos meus companheiros de mesa perguntou-lhe se jamais tinha se arrependido. Com o mesmo sorriso aberto, respondeu:
- Vivi minha vida da forma mais intensa possível; tive meus momentos de luta e razões para participar dessas batalhas. A meu ver, alcancei tudo o que queria e prefiro me arrepender do que fiz, a chorar pela perda da chance de mergulhar numa interrogação.
Tomou um gole de chope e continuou:
- Dentro de meu conceito, superei todos os desafios, comprovando ter capacidade em reescrever minha história – danem-se os que me chamam de irresponsável - e se morrer amanhã, quero que escrevam na lápide apenas uma frase: “Aqui jaz alguém que viveu a vida.”
Levantou, despediu-se com a curvatura da cabeça e seguiu seu caminho. Afinal, tinha que vender seus amendoins para defender o prato de comida daquele dia. A nós coube um misto de frustração e admiração por aquele homem que embora indo contra as filosofias comportamentais imposta por uma sociedade, vivera sem contrariar seus ideais.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
NOVA DIMENSÃO
Afirmam os entendidos que existem outras Dimensões em que a vida existe e corre paralela, acima ou abaixo dos nossos padrões, embora não possam ser vistas e ouvidas por nós, mas, apenas, por um grupo especialíssimos de seres humanos que nascem ou são treinados para participar de tal feito.
Assim, a nossa seria a Terceira Dimensão, onde temos noções - nem todos as tem - de altura, largura e profundidade. Até aí, nada de novo. O negócio é a Quarta. Dimensão, é claro, onde além das três noções que, em tese, absorvemos, teríamos a do TEMPO. Aí o bicho pega. Como será esse negócio de ter noção do tempo, diferente da que conhecemos? Os mais filosóficos afirmam que na Terceira Dimensão tudo acontece no hoje. O passado foi um hoje que se foi e o futuro não existe. Aquilo que você planeja hoje, hoje acontecerá. Tudo bem, e daí, como vai ser na Quarta?
Segundo tentaram me explicar os tais entendidos, o TEMPO não passa de um enorme cilindro cujas paredes estão em constante movimento, permitindo que os acontecimentos subam, ou desçam, numa velocidade tal que o acontecido agora, pode estar se repetindo no amanhã ou no ontem. Deu para entender? Aposto que não.O fato é a afirmativa de que nosso planeta está sendo transferido para esse novo degrau de evolução e a nós viventes que estivermos presentes quando tal evento acontecer, caberá ver e entender esse progresso. Com a correria da vida moderna, só tenho uma dúvida. Teremos TEMPO para perceber a novidade?
O GAROTÃO
André não era jovem, mas fazia questão de manter uma forma física invejada pelos da sua idade, graças a quilômetros percorridos em esteiras rolantes e pesadíssimos halteres levantados três vezes por semana, sob dedicada atenção de um preparador físico destinado unicamente para atendê-lo na academia e que lhe custava uma fortuna por mês. Além disso, havia a assessoria da nutricionista, do cardiologista e do clínico geral, provas incontestáveis de sua fixação pelo corpo perfeito.
Não que isso o impedisse de continuar dirigindo sua empresa bem sucedida. Gostava, entretanto, de observar os olhares das jovens funcionárias e cultivar uma rede de informantes que “captavam” notícias na chamada “rádio do corredor”. Ignorava as fofocas, mas dava especial atenção aos comentários elogiosos ao seu físico.
Incrível como possa parecer, não era dado a conquistas. Talvez, quem sabe, pelo perigo de eventuais insucessos sexuais comuns em sua idade e a aversão a tomar qualquer remédio que o ajudasse nesse sentido, mas que poria em dúvida sua aparente virilidade. Marido extremoso e pai atento satisfazia-se com os elogios e em cultivar algumas “paqueras” à distância.
Certa manhã chegou cabisbaixo ao escritório, o que foi notado pela secretária. Embora isso não fosse comum, em algumas outras ocasiões acontecera e aí, cumprindo instruções recebidas do Dr. Ribamar, misto de gerente jurídico e bajulador de plantão cujo relacionamento com o chefão equilibrava-se entre a amizade e um puxa-saquismo discreto, colocou-o a par do acontecido.
Ribamar colheu alguns documentos que justificariam sua ida à sala do chefe e para lá rumou. Encontrou André realmente abatido. Após os rodeios de praxe, perguntou se podia fazer algo pelo chefe/amigo. A resposta foi imediata. Como se desaguasse uma enorme frustração contou sua triste história:
Tinha acabado de tomar um café no bar da esquina, quando percebeu que três jovens com uniformes escolares olhavam e sorriam para ele. Evidente que eram quase meninas, mas não poderia deixar “passar em branco” uma “paquera”, mesmo que da forma mais descompromissada possível. Assim, sorriu incentivando a troca de olhares e duas delas fizeram-lhe um sinal perguntando se podiam falar-lhe. Claro que concordou e elas atravessaram a rua rindo muito e lhe disseram:
- Tio, sua braguilha está aberta.
Saíra dali se arrumando e ouvindo as gargalhadas das meninas às suas costas. Nem tanto pelo vexame da exposição indevida, mas abatidíssimo por ter sido chamado de “tio”, afirmação definitiva de que o acharam idoso demais para elas.
Pior que isso, só a internação em um asilo geriátrico...
quinta-feira, 17 de julho de 2008
UMA NOITE PARA FICAR NA HISTÓRIA
Estava sozinho. A mulher viajara para assistir à mãe doente em São Paulo e os filhos, já casados, moravam no outro lado da cidade. Não conseguia prestar atenção no programa que passava na televisão. Seus pensamentos voavam sem se deterem em nada. Surgiu a vontade de tomar uma cerveja. Na geladeira, sabia não haver nenhuma. Aliás, há tempos deixara de lado o hábito de bebê-las enquanto assistia o futebol, para evitar a implicância de Carmem com a molhação que fazia na pequena mesa de centro, onde sempre esquecia o copo. Sair nas sextas após o expediente, para encontrar amigos em um bar qualquer e bater o chamado “papo furado” esquecera, graças à cara fechada da mulher que insistia em querer acompanhá-lo.
Levantou-se e em poucos minutos trocara de roupa e trancava a porta da casa. Meio inseguro em princípio, resolveu escolher um lugar longe de onde morava. Sabia que sua presença por ali num boteco qualquer, daria motivos para fofocas durante semanas. O barzinho escolhido até que era simpático. Preferiu a mesa do canto, embaixo do toldo que ocupava metade da calçada e ficou por ali ouvindo a música tocada por um desses grupos que pulam de bar em bar nas calçadas da Zona Sul, em busca de uns trocados. As batatas fritas, companheiras fiéis dos chopinhos, estavam uma delícia e ali teria ficado quieto com seus pensamentos, não fosse alguém gritar alegremente:
- Batista, que bons ventos o trazem de volta à boemia!
Lá estava Nilton, seu velho companheiro dos tempos de solteiro, grande como sempre e com uma cintura bem mais larga daquela de épocas em que faziam musculação, ávidos por impressionar as meninas na praia. Com ele, mais três rostos não totalmente estranhos sorriam também. Sim, eram contemporâneos menos próximos, mas partícipes das amalucadas aventuras da juventude.
Migrou para a outra mesa e sentiu-se mais confortável, tendo com quem conversar. E como tinham assuntos a colocar em dia, meu Deus! Era o único ainda casado com a mesma mulher; todos já tinham netos, mas só ele renunciara aos encontros marcados a cada semana num bar diferente, sob o pretexto de acharem o melhor chope da cidade; continuava proibido entre eles, falar de (suas) mulheres ou problemas familiares. Era uma reunião para desopilar o fígado, diziam.
A noite passava rapidamente, até que em determinado momento surge um tumulto. O homem alto e atlético fora até o Caixa e com uma pistola em punho, pegara todo o dinheiro disponível. Alguns clientes sentados na parte interna do bar, começaram com a gritaria. O assaltante, nervoso, disparou em direção ao teto e aproveitando a confusão, correu na direção da saída. Nilton sem se levantar, esticou a perna fazendo o bandido tropeçar, cair e largar a arma. Somente Batista notou a presença do cúmplice na calçada, posicionando-se para defender o companheiro. Encorajado pelos muitos chopes bebidos, fingiu correr da baderna em direção à rua, deu a volta e pegou o homem pelas costas, numa gravata que, nos velhos tempos, jamais alguém se livraria. O sujeito praticamente ignorou o famoso golpe, mas conseguiu evitar que sacasse a arma e rolou agarrado a ele pelo chão. Só então chamou a atenção dos companheiros que mesmo não entendendo o motivo da “briga paralela” imobilizaram o sujeito e, aí, souberam de quem se tratava.
A polícia chegou em poucos minutos e as palmas e aclamações dos frequentadores do bar, não livraram os heróis - Batista, Nilton e os demais companheiros - de darem com os costados na Delegacia, onde repórteres de plantão se encarregaram da publicidade do fato.
Na manhã seguinte foi acordado por um dos filhos, assustado com a notícia de primeira página, onde a foto do pai e seus amigos era destaque; a mulher voltou imediatamente de São Paulo, sob o velho pretexto de: “Não posso deixar o Batista sozinho um dia que ele desanda a fazer besteiras.” Só não contava encontrá-lo com o corpo doído, algumas escoriações, mas feliz com a reverência dos vizinhos:
- Eu sempre achei o Seu Batista com um jeito de homem que resolve... Dizia Dona Olinda.
- É bom saber que a gente tem alguém desse quilate por perto... Falava o Seu Nelson, velhinho simpático do quatrocentos e três.
Carmem desistiu da bronca ensaiada desde que saíra de São Paulo, principalmente por sentir que tudo aquilo fizera um bem enorme ao velho companheiro, cujo olhar voltara a brilhar como antigamente.
No final da outra semana, comunicou abrir mão das exigências que impediam Batista de encontrar com os amigos e não aceitou o convite para ir na reunião seguinte, como convidada de honra, por saber que dificilmente agüentaria uma noite inteira de bravatas, contadas pelos, agora, heróis dos bares cariocas.
Tudo, menos isso. Afinal, sua paciência tinha limites.