segunda-feira, 23 de junho de 2008

UMA HISTÓRIA ANTIGA


Nunca foi um homem ambicioso. Para falar a verdade, afora os sonhos naturais da infância, jamais se preocupou com o que seria no futuro. Engenheiro, Advogado, Médico, Professor... O pai fora um honesto trabalhador da indústria privada e que respirou aliviado, certamente, quando ele resolveu parar com os estudos. Não que o velho tivesse dito algo, mas ter um a menos para alimentar certamente melhorou seu orçamento familiar. Leitor compulsivo, escrevia bem malgrado a instrução limitada e acabou conseguindo um bom emprego, que dava para viver sem maiores problemas. Quase vinte anos mais tarde, incentivado por amigos, fez o supletivo e de posse do certificado de conclusão do ensino médio, resolveu tentar uma faculdade qualquer. Direito. Era a mais próxima da sua casa e foi para lá que se dirigiu. Até que foi aprovado com certa distinção para quem não se preparou de forma adequada - dinheiro para cursinhos, nem pensar - e, rapidamente, começou a ascender profissionalmente. Chefe de Setor, de Departamento e, finalmente ao receber o diploma de "doutor", Gerente.


Casou-se três vezes, o que complicou um pouco as finanças, já que em todos teve filhos e os mantinha condignamente. Conheci-o quando, juntos, freqüentamos os bancos da faculdade, e nos tornamos amigos, coisa rara para ele que os contava nos dedos. A partir daí vi-me inserido em algumas de suas histórias de vida, nem sempre tão agradáveis de saber. De qualquer forma, fiquei conhecendo seus (dois) amigos, mulher e filhos.


Foi com surpresa que recebi um telefonema informando que se suicidara. Os três amigos se encontraram no IML e receberam juntos o bilhete que encontraram em seu bolso. Não era um recado para os que ficaram, mas somente um pequeno poema que, para nós, foi muito mais que a justificativa para seu ato desesperado:

"Nada que eu fiz deixou saudades,

nada que plantei frutificou

nada que eu fui virou história,

nada que amei também me amou.

Insólito pela própria natureza,

verdadeiro intróito à incerteza,

no livro da vida sou um nada.

Passei por ela com a impressão

de ter sido um equívoco

e minha missão,

suspensa antes de ser iniciada."



Não mostramos o papel com a escrita de quem certamente estava sobre grande emoção, para a mulher e os filhos. De comum acordo, fiquei de posse daquele tosco poema por muitos anos e só hoje, ao tentar organizar meus documentos, reclamação eterna de minha mulher, reencontrei o papel dobrado em quatro, num envelope cuja palavra "Diversos" constava do lado de fora. Tive vontade de transferi-lo à família ou, quem sabe, para mandar gravá-lo em sua lápide, mas, pensando melhor, certamente seria reviver emoções já acomodadas em suas mentes. Mudei o papel para uma pasta com o título de "Documentos Importantes". Talvez última homenagem ao velho companheiro.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

HERÓI SEM QUERER

Eram mil os contatos que tinha mundo afora, mas naquele momento necessitava, apenas, de um número telefônico que insistia em não completar a ligação.

A mulher contorcia-se em espasmos e gritava de dor. O parto estava em franco andamento e só ele poderia ajudá-la. Nem em filmes prestava atenção a essas histórias e, exceto pela água quente e pano limpo, cuja necessidade ecoava em sua mente, mas que jamais saberia onde e como usar, ajoelhou-se na frente da mulher que, deitada no chão da tapera onde morava no meio daquele matagal, postou-se numa posição que, em outro momento e situação, teria lhe dado um enorme prazer. Pediu a Deus para ajudá-lo.

Não queria, mas só pensava no por que parara o carro atendendo ao aceno da menina que agora olhava assustada para a mãe deitada e para ele, como se perguntasse o que estava acontecendo ali.

Em poucos minutos rompia a cabeça cabeluda de uma criaturinha morena e que logo foi totalmente expulsa do corpo da mãe e não se fazendo de rogada, explodiu num choro que parecia informar estar dispensando os tapas usuais na ocasião.

A própria mãe instruiu quanto ao cordão umbilical e pronto, ali estava uma outra menininha que, minutos mais tarde, sugava o seio da jovem senhora.

Só aí o telefone conseguiu funcionar e em quinze minutos os homens da ambulância do Corpo de Bombeiros chegavam até ele. Foi cumprimentado pelo médico da equipe e elogiado por ter se portado com a frieza que só Deus sabe como manteve.

Saiu dali e rumou direto para casa. Deixou o carro mal estacionado e subiu os cinco lances pela escada, dispensando o elevador, abriu a porta e foi recebido pela mulher assustada, olhando para ele. Não agüentando o nervosismo, falou com um sorriso forçado:

- Não imagina o que acabei de fazer...

Ela, com uma das mãos sobre o peito e a outra tapando a boca, respondeu com a voz tremida:

- Esse sangue na sua roupa... Oswaldo, pensei que não teria coragem... Você matou o gato da vizinha!

domingo, 15 de junho de 2008

O MENDIGO


Era alto e magro. Vestia um costume cujo paletó, bem cortado, evidenciava ter sido feito por mãos hábeis e caras. Não fosse a ausência da camisa e dos sapatos, poderia ser tomado como um homem de posses.

Com presumíveis trinta e cinco/quarenta anos, surgiu da noite para o dia naquela esquina, onde se postava de pé, sempre obedecendo a uma reta imaginária do tronco da árvore da qual ficava afastado cerca de dois metros. O olhar perdia-se num horizonte muito além das casas do outro lado da rua. Semblante tristonho, só esboçava um sorriso quando o proprietário do armazém, português baixinho e atarracado, passava por ele e brincava:

- Tens que arranjar uma hora para descansar, rapaz. Do jeito que te moves, vais morrer de cansaço...

Sua voz ninguém ouvia. Mesmo quando Dona Mariana, senhora bondosa, lhe dava o prato de comida diário (“coitado, tem idade para ser meu filho...”) fazia um arremedo de sorriso e olhava para ela agradecido.

Algumas velhinhas atravessavam a rua para não cruzarem com o mendigo, temerosas de um ataque que, segundo alguns debochados, enchiam seus sonhos com alegrias eróticas de há muito perdidas. As crianças, presença constante com bicicletas, patinetes e bolas, ignoravam o ser estático, que lhes retribuía a ausência de interesse.

À noite, desaparecia. Alguns diziam tê-lo visto entre as pedras do morro existente no final da rua, enquanto outros afirmavam que se abrigava num túnel, saída da estação da linha férrea, a cento e cinqüenta metros dali. O que se sabia, com certeza, era sua presença no lugar de sempre, todas as manhãs, enquanto os chefes de família saíam para o trabalho. Como não fazia mal a ninguém, o policial morador numa casa na parte alta da rua, foi convencido deixa-lo em paz.

- “O tempo tudo resolve”, dizia Dona Georgina . “Um dia, quem sabe, a gente vai poder fazer alguma coisa por ele”, concluía.

Meses se passaram e o homem já se confundia com a paisagem da rua. Só a sujeira dos seus trajes, os cabelos emaranhados e a barba grande, evidenciavam a longa permanência por ali. Certo dia, um grupo de animados ginasianos parou a certa distância dele, para conferir respostas dadas numa prova de História, da qual acabava de sair. O assunto girava em torno do Império Romano e para surpresa dos rapazes, ouviu-se uma voz clara, sonora e pausada, dissertando:

- Roma. Ao que dizem as lendas, fundada por Rômulo e Remo, irmãos gêmeos que quando crianças, teriam sido alimentados por uma loba (...) Os sete primeiros imperadores romanos foram importantes não só no desenvolvimento daquela cidade-estado, mas também na conscientização do povo para a unicidade exigida no estabelecimento do conceito, do sentimento de nação (...) A importância de Júlio Cezar no aumento da área sob jugo romano...

O mendigo caminhava de um lado para outro, como se desse uma aula para aqueles alunos surpresos. Todas as questões da prova foram respondidas sem que, em momento algum, olhasse na direção dos jovens. A partir daquele momento, ganhou um apelido: “Mestre”.

- Como vai Mestre, tudo bem?

Pergunta respondida sempre com o enigmático sorriso. A partir dali, tornou-se referência para estudantes com dúvidas. Respondia a todos os questionamentos sempre com o olhar dirigido para uma classe de aula inexistente. Vez por outra, com o bom humor inconseqüente dos rapazes, reagia com severidade:

- “Cara”, dizia um, “traduzi a frase Le lion c´est le roi des animaux, como: O leão de tanto hurrar desanimou”.

- Oh plebe ignara! O leão é o rei dos animais... Preste mais atenção ao que lê e fala!

A garotada se divertia a cada reação do mendigo. Até Dona Déia, católica fervorosa, foi ler em voz alta trechos da Bíblia, recebendo como resposta imediata, gentil e atenciosa, mas sem dispensar o olhar perdido, a seguinte recomendação:

- Não atentai somente ao que ledes! Procurai respostas também nos apócrifos, ignorados no Novo Testamento por não convirem aos que o organizaram.

Dona Déia foi procura saber o significado daquilo tudo e, assim, tomou conhecimento dos tais livros apócrifos.

Não havia mais dúvidas. O “Mestre” era dono de cultura invulgar e grande demais para alguém numa situação de miserabilidade daquelas. Havia de se fazer algo para identificá-lo, achar parentes ou responsáveis por ele. Dessa vez foram os moradores que procuraram por Wilson, o policial. Explicaram os últimos acontecimentos, aguçando sua curiosidade.

Alguns dia mais tarde, já quase noite, um belíssimo carro parou próximo do “Mestre” e dele saíram o motorista e um senhor de cabelos grisalhos, recebidos pelo costumeiro sorriso. Não reagiu e foi colocado gentilmente no banco traseiro do carrão, que imediatamente se deslocou no sentido sul da cidade. A explicação só foi trazida mais tarde, quando Wilson voltou do plantão na delegacia:

- O homem é um ricaço que ficou assim após perder a mulher e os filhos num acidente... Era um médico respeitadíssimo, apesar da pouca idade, e até livros já tinha escrito...

Ali acabava a curiosidade da vizinhança, enquanto aquele ser continuava escondido sob uma parede psíquica, protegendo-se das recordações que se tornaram a tragédia da sua vida.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

OS QUATRO AMIGOS

Eram quatro amigos. Desde os tempos de colégio primário. Foram crescendo juntos e, jovens, freqüentaram o mesmo clube onde além dos esportes usuais, dançavam nos bailes dos fins de semana.

Namorando, armavam programas em que pudessem participar juntos e assim foram até o vestibular, onde um cursou Engenharia, outro Administração, o terceiro Economia e, o último, Direito. Só aí seguiram caminhos diferentes e por mais que tenham tentado, os compromissos naturais foram afastando os quatro.

O que cursou Engenharia, depois de formado conseguiu uma bolsa e foi fazer doutorado na Alemanha e por lá ficou; o economista passou num concurso público e se transferiu para Brasília; o administrador após belo MBA, assumiu funções de destaque numa famosa indústria, enquanto o advogado nunca exerceu a profissão, já que ia muito bem, obrigado, na empresa de bebidas, seu primeiro e único emprego na vida.

Todos casaram, o advogado duas vezes, e a vida continuou até saberem da morte do engenheiro, cujo corpo retornava para o Rio, onde seria enterrado. Foi a primeira oportunidade de um encontro efetivo. Nenhum deles foi ao velório acompanhado de suas mulheres, o que facilitou a “esticada” até a zona sul, onde voltaram ao mesmo bar de tantos anos atrás. Nem a morte do amigo conseguiu conter a alegria daquele momento. Um primeiro chope e a mesma discussão sobre o sabor da pizza a ser pedida que, afinal, vinha sempre dividida em quatro sabores. Mesmo não gostando da Marguerita, lá estava o pedaço predileto do amigo que se fora.

Cada um contou sua história, os filhos nascidos, o sucesso em suas atividades. Menos o advogado, não satisfeito profissionalmente, não feliz nos dois casamentos e com uma lista de problemas com os filhos, que poderiam encher mil guardanapos do bar, se ali resolvesse escrevê-los.

Nem por isso ficaram menos felizes. A tarde já caía quando num pileque daqueles, onde – sempre – o economista tinha que ser amparado, passaram por uma casa lotérica e resolveram participar do concurso acumulado em muitos milhões e, apenas pela farra, jogaram todos os mesmos números.

No dia seguinte a surpresa do prêmio ganho. Foram juntos resgatar a fortuna e, de comum acordo e devidamente orientados pelo economista, resolveram fazer os mesmos investimentos e só tirarem o suficiente para uma vida mais confortável, coisa que variava sob a visão e necessidades de cada um.

O advogado comprou o apartamento dos sonhos, de frente para o mar do Leblon; o administrador investiu nas indústrias das quais, nessas alturas, era sócio e o economista foi fazer uma longa viagem pelo mundo.

Mais tempo se passou e foi a vez do administrador se ir. Novo encontro, novo pileque e a dificuldade do advogado em “transportar” sozinho o economista, nessas alturas com muitos quilos a mais e que o fizeram ser o próximo a ir embora. O sobrevivente da turma depois do enterro, não deixou de ir tomar um chope e comer a pizza, mas tudo ficara sem graça. Nem o bom dinheiro que não faltava mais, nem os problemas familiares que se amenizaram, faziam-no mais feliz. Morreu cinco anos depois.

Num velório pouco concorrido, a viúva foi abordada por uma parenta que se dizia vidente e perguntava a respeito de quem seriam os “três espíritos” junto ao caixão e que vez por outra davam uma olhada no morto e conversando entre eles, pareciam estar rindo.

A amizade continuava...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

O DIRETOR

Estendeu os braços, espreguiçando-se longamente. Pela janela, via o verde predominante no grande jardim que separava a casa da rua movimentada e cuja entrada era eternamente guardada por enormes seguranças, que lembravam aqueles “homens-armários” vistos nos filmes americanos.

O dia seria longo, sabia, mesmo assim seus gestos eram vagarosos, lembrando um gato ao acordar e cujos movimentos são quase em câmera lenta, até sentir a musculatura aquecida e pronta para saltos incríveis, que só eles sabem dar.

Após o banho, colocou o elegante terno e se encaminhou para a sala, no andar inferior, onde substancial desjejum o aguardava. Não gostava daquilo. Preferia o dos velhos tempos em que ele próprio ia até a geladeira, fazia o sanduíche que comia acompanhado de um suco qualquer. A riqueza trouxe-lhe mordomo, empregados, motoristas.

Por mais que o tempo passasse, não se sentia confortável com os “rapapés” dos que o cercavam. Isso tudo o sufocava e seria motivo de um longo papo com seu analista, logo que pudesse.

Na reunião daquela manhã, divertiu-se com o jovem garçom recém-admitido, visivelmente atrapalhado no uso da bandeja, xícaras e afins. Quase dera um banho no Diretor Administrativo que só não se enfureceu em razão do olhar complacente do seu superior, ele, é claro. Não iria tomar qualquer medida que prejudicasse o rapaz. Certo dia passara por situação semelhante, que só com a prática adquirida e o tempo, fizeram-no o exímio profissional de hoje.

E lá se foi a reunião, iniciou-se outra e depois telefonemas, exame de documentos, recepção a visitantes importantes... Não que estivesse exausto no fim do dia, mas saturado daquela vida que levava entre as paredes da fábrica e, até mesmo, da própria casa.

O carro negro, com vidros idem, esperava por ele, como sempre. Diferente dos outros dias parou e olhou ao seu redor. Lá na frente, quase no portão de saída da indústria, ia o garçom daquela manhã que, encerrado o expediente, certamente voltava para casa.

Para surpresa do motorista, dispensou-o assumindo o volante e, sem pressa, fez o mesmo trajeto do novo funcionário, até que esse se afastasse o suficiente da fábrica.

Evidente que o rapaz arregalou os olhos ao ver o chefão mandando que sentasse ao seu lado naquele carrão. Mesmo sem jeito, ocupou o lugar do carona e sorriu amarelo, quando lhe foi perguntado para onde ia. Morava longe, num subúrbio esquecido e se surpreendeu quando o chefe pediu que lhe ensinasse o caminho.

Viagem longa, trânsito complicado, o que permitiu relaxar e responder às perguntas do homem, que não parecia tão bravo como diziam por lá.

Acabaram parando em um botequim qualquer, onde a rapaziada ensaiava um daqueles pagodes usuais nos fins de tarde de sexta-feira. Beberam, cantaram, falaram de mulheres e de futebol. Discutiram aquela jogada decisiva do domingo passado e já eram altas as horas em que foi deixado na porta de casa, lamentando que os vizinhos não estivessem vendo sua chegada no Mercedes negro.

Contou a história para seus familiares. Sua mãe recomendou-lhe maiores cuidados com o chefe na segunda-feira; o irmão desconfiou que o cara fosse bicha e o pai, simplesmente, nada disse.

Chegou o dia da volta. Ressabiado e sem conversar com nenhum colega a respeito da aventura vivida, retornou às bandejas, cafeteiras, xícaras. O garçom da Diretoria, que faltara na sexta, voltara ao serviço e sua oportunidade de rever o chefe, remota. Melhor assim, pensou, o cara não me vendo, pode até esquecer daquela “zona” que armamos três dias atrás.

Pelo quê não esperava, era a convocação do Departamento de Recursos Humanos. Chegou lá em pânico. Tudo indicava que seria demitido. Ao contrário, foi recebido pela Gerente que o informou das ordens da Diretoria sobre encaminhá-lo para treinamentos que lhe permitissem acessar a posições de mais destaque num futuro próximo. Tivera a oportunidade que sonhara de largar o uniforme de garçom e passar a ser um funcionário como os outros. O quê fazer? Procurar o cara e agradecer ou “ficar na dele” fingindo que não existia? Escolheu a segunda opção e tocou a vida em frente.

Não sabia, entretanto, do bem que fizera a um sujeito sério e caladão naquela noite. Escolhido ao acaso, conseguiu remetê-lo aos velhos tempos em que podia se dar ao direito de cantar sambinhas num bar, tomar “todas” e voltar para casa com o sol nascendo, meio de pilequinho, mas com a alma leve.

Não sabia o fim-de-semana alegre que proporcionara a uma família surpreendida pelas mudanças de temperamento de um homem cujas exigências do dia-a-dia tinham feito esquecer da existência da vida simples, agora lembrada, muito mais feliz que a dele.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A REZADEIRA



Era uma figura frágil. Da janela de sua casa humilde, deixava o olhar se perder nos morros que impediam um horizonte longínquo. O marido, visivelmente mais jovem, um bêbado inveterado que nada fazia para colocar centavos que fossem, na manutenção do casal. Pelo contrário, saíam dela as despesas com as cachaçadas diárias.

Lavava e passava para quem pudesse pagar e seu trabalho bem feito, sem uma ruga nos tecidos e doses certas de goma nos colarinhos das camisas masculinas.

A casa, quase um barraco, era limpa e nas prateleiras da cozinha, os poucos alimentos guardados em latas bem conservadas e os chamados panos de mão, alvos e com aplicações feitas à mão, trocados quase todos os dias.

Quando o marido se foi dessa para uma melhor, após uma bebedeira daquelas, e pelo qual colocou luto fechado por um ano, já era conhecida como respeitável rezadeira, com fama que atravessava as fronteiras do município.

Não era fácil controlar o número de pessoas que a procuravam, já que não admitia deixar de atender seus, digamos, clientes, sem provocar desconfortáveis encontros entre um e outro enquanto trabalhava.

Nada aceitava em troca de suas rezas. Nada. Afirmava sempre que um dom recebido de Deus não podia ser cobrado. A realidade é que sua fama aumentava, graças às curas proclamadas pelos portadores de diferentes mazelas.

Diziam as línguas ferinas, que chegou a ser investigada pelos médicos interessados em processá-la por exercício ilegal da profissão. Mas como acusá-la por rezar? Nunca receitara sequer um chá de ervas e seus materiais de trabalho não passavam de robustos ramos de arruda, água e carvão, este um verdadeiro “termômetro”, já que de acordo com a gravidade do “peso” trazido pelos clientes, descia ou subia no copo de água e dava a ela a dimensão de como sacudir a arruda sobre o corpo do doente. Ah, sim, durante as sessões, murmurava preces ditas de forma ininteligível, por mais atentos fossem os ouvidos que a cercavam.

Tranqüila, olhos bons e fala doce, conquistava a todos e chegada a velhice, uma boa alma alojou-a em outra casa, mais nova e menor que a anterior, economizando-lhe as forças e o dinheiro do aluguel, pago pela vida inteira. Perdeu a vista dos morros verdes, mas ganhou um pequeno quintal, onde as flores a entretinham. Talvez a mesma pessoa tenha lhe garantido a comida quando deixou de trabalhar, mas nunca falou a respeito, talvez até proibida por seu benfeitor.

Quanto às rezas, continuaram pelos tempos, para desespero do padre local que ao tentar proibir sua permanência durante as missas, recebeu ordens expressas do bispo para não mexer com ela. Mais uma vez aquelas línguas já citadas, veicularam ter o senhor bispo uma parenta curada pela velhinha...

Numa manhã fria, não abriu suas janelas e foi encontrada sobre a cama, toda arrumada como se estivesse preparada para passear, com uma flor nas mãos. Certamente previra o fim se aproximando e mesmo na morte, procurou evitar dar trabalho para os outros.

Enterrada com pompas reservadas para autoridades e afins, fez rir aos que conhecendo a história, assistiram o tal padre encomendando sua alma, talvez aliviado pelo fim da concorrência.

Suas proezas tornaram-se quase uma lenda e o túmulo onde foi enterrada, marcado apenas por uma pesada pedra, está sempre coberto de flores talvez trazidas pelos que se beneficiaram por suas rezas ou, quem sabe, de algum dos milagres que lhe são atribuídos em conversas à baixa voz pelas velhinhas da cidade. Não posso deixar de imaginar sua “descoberta” pelo Vaticano e a cara do velho padreco, fazendo simpáticas orações para não ficar mal com a nova santa.

HOMEM + NATUREZA = VIDA




Nada acontece por acaso, dizem os estudiosos dos mistérios desse Universo que nos cerca. Do nascimento de uma flor às marcas deixadas por um animal na estrada de terra, tudo está ali porque tinha de estar. Há, entretanto, os que duvidam dessa filosofia fatalista, até por uma outra regra, a do livre-arbítrio, através da qual podemos alterar nossos caminhos de um momento para o outro, desarranja tudo o que estava previsto, ocasionando mudanças no que deveria ser imutável.

Segundo teoria hinduísta, existem “ene” caminhos traçados e paralelos. No momento em que exercemos os direitos de mudança, apenas passamos de um para outro, continuando a obedecer ao que “estava escrito”.

Se pararmos para observar, a ordem que coordena todo o movimento dos astros faz-nos acreditar na presença de uma força maior que dirige e determina o desenrolar da vida. E quando falamos em vida, não nos atemos a nós, míseros grãos humanos, mas no gigantismo de algo muito além das estrelas, visíveis ou não. Essa ordem, essa disciplina de movimentos, luzes, gases, vácuos, gravidades, são tão exatos que, cremos, depois de identificados, trarão aos pesquisadores a surpresa de uma unidade monótona e sonolenta. Afinal, se a vida é uma eterna repetição de fatos e acontecimentos, por que o universo seria diferente?

Mas até nessa possível monótona e constante repetição, sente-se a força do administrador do sistema que, fazendo com que todas as suas “indústrias” funcionem no mesmo compasso, facilita seu controle e intervenção, caso constatados quaisquer desvios de conduta que possam prejudicar o bom andamento e o sucesso da empreitada.

Nós, partículas ínfimas desse portento natural, somos influenciados física e mentalmente pelos sutis movimentos da máquina maior, chamada UNIVERSO. Isso é evidente até porque participamos intimamente da engrenagem que o movimenta.

Daí concluirmos que se obedecidas as leis determinadas para o funcionamento da Terra e do Universo, não haveria motivos de se temer o surgimento de sanções originadas por má conduta. Tentando explicar melhor, se eu, pequeno parafuso, concordo em ocupar o espaço determinado e cumpro as funções para mim estabelecidas, recebo do “Operador” toda a lubrificação e reapertos exigidos para que a saúde da peça dure pelo tempo de vida estabelecido, sem ferrugens, trincas ou quebras extemporâneas. Concluído esse prazo, serei substituído e encaminhado para uma reciclagem que me permitirá, tempos depois, ser enviado para suprir novas funções em outra parte da máquina.
Que alguém ou alguma força natural criou e pôs em funcionamento a eterna engrenagem, não tenho dúvidas. Que se nós conseguirmos nos ater a cumprir nossas missões cônscios de que a tarefa determinada pela Força Maior não inclui excessos ou agressões à matéria da qual somos compostos, é uma certeza. Assim, seguindo sensitivamente o caminho que a natureza nos mostra, teremos todas as chances de ver uma estrada florida pela saúde,