Não sei se pelo carnaval que limita o assunto da televisão a um só programa, Escolas de Samba,obrigando-me a procurar outra diversão; não sei se pelo horário -a noite já vai grande - talvez pelo silêncio que me imponho para não atrapalhar quem dorme a poucos passos de mim, mas pela primeira vez em muito tempo, sinto-me solitário.
Conheci um jornalista que ao se aposentar, foi morar num apartamento do primeiro andar de um prédio na avenida Nossa Senhora de Copacabana, caminho quase obrigatório de todos os ônibus que saem daquele bairro. A barulheira dentro da casa era terrível e só diminuía um pouco, lá pelas tantas da madrugada. Vivia só e intitulava-se como um "eremita moderno", ou seja, enquanto quisesse estaria trancado naquele apartamento, mas sabendo que a poucos passos - um andar, melhor dizendo - havia toda a população de um bairro que não dorme. Surpreendeu-se quando o chamei de solitário covarde, já que se impunha um "modus vivendi" que, sabia, poderia ser interrompido quando o primeiro sinal de pânico toldasse a tal solidão. Mudou, então, o título para "eremita psicológico" e, rindo, dispensou qualquer comentário adicional que eu quisesse fazer.
A minha sensação é diferente, como se um peito vazio não aceitasse as batidas do coração; do grito dado no cume de uma montanha e que não trouxesse de volta o eco do meu desespero. Estranho, muito estranho... Ouvi uma entrevista com o Ariano Suassuna, na qual ele diz que "nem tudo que existe é crível" e, de repente, familiarizo-me com meus fantasmas que não vejo, mas sinto, e podem de fato existir e fazerem-me companhia nesse momento de desconforto. Presto atenção a um possível vulto que passa por mim, mas que só minha consciência detectou. Será a culpa por algum procedimento anterior, projetado como um "flash" momentâneo; será um pensamento perdido em algum momento da vida dos que circularam por aquela sala e que se fixou ali ou realmente existe e não posso acreditar só porque se apresentou de uma forma diferente da imposta aos que têm a mente presa na dimensão em que vivemos?
Complicado, mas factível. Divirto-me pensando que com ele não irei jogar uma partida de xadrez ou comentar os fatos da semana que passou, porém de uma forma ou de outra, esses novos pensamentos fizeram desaparecer a solidão e antes que outra sensação desagradável se faça presente, vou dormir... Afinal amanhã será outro dia...
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
O BAILARINO
A mudança de endereço não significou qualquer elevação no “status”de Dirceu. Pelo contrário, Ondina, sua mulher, deixou para trás um número razoável de freguesas para as quais lavava e passava, já que na nova casa, se assim pudessem chamar os dois cômodos alugados e com o banheiro compartilhado, não havia espaço para essas atividades.
Evidente que o nível dos novos vizinhos, mais tranqüilos e atenciosos, deixava longe o do pessoal da favela de onde tinham saído. Mas não fora esse o motivo da troca de endereço. Dirceu, além de conseguir os dois cômodos por um aluguel muito baixo, passou a ficar bem mais próximo do centro da cidade, onde trabalhava como ascensorista num prédio comercial. Tinha, ainda, o filho Darcy, que podia ir a pé para o Quartel no qual cumpria o Serviço Militar. Ondina com o passar do tempo, certamente conseguiria um emprego de doméstica nas redondezas. Era só esperar que ficasse um pouco mais conhecida.
Darcy foi quem mais aproveitou a mudança. Ali podia usar as roupas que gostava, sem ouvir piadinhas idiotas dos malandros da favela. Esguio, ombros largos, tinha a boca rasgada demais para o seu gosto, mas no resto, até que se evidenciava entre os da sua idade.
Ainda estava naquele período mais duro do Quartel. Os primeiros três meses eram os que os exercícios, ordem unida e a prática de tiro esgotavam as reservas físicas dos recrutas. Depois, sabia, o grupo seria distribuído entre os pelotões e praticamente só faria os trabalhos internos, nos quais os oficiais e sargentos não queriam sujar as mãos. Havia, também, os serviços burocráticos em que se aproveitavam os de melhor nível cultural e, melhor ainda, se fossem bons digitadores. Ali depositava suas esperanças. Já iniciara o segundo grau e aprendera digitação ajudando uma vizinha a fazer trabalhos para alguns escritórios, aproveitando para defender uma grana extra, para seus gastos com diversão, que não tinha coragem de pedir ao pai.
Sabia que estava sendo observado pela Sargenteação, espécie de secretaria do Comando da Companhia, a partir do momento que travou conhecimento com o Cabo Marcos, por coincidência morador próximo do seu novo endereço. Embora evitasse ir e voltar do Quartel em sua companhia – o Cabo não gostava que o acompanhassem nesse trajeto - sempre o encontrava à noite, quando batiam longos papos.
Foi assim que tomou conhecimento da tradição que o Sargento Hélcio estabelecera. A Sargenteação era composta por ele, dois cabos e um soldado, este uma espécie de contínuo do “escritório”. Quando o soldado era promovido a Cabo ou ao dar baixa, indicava outro soldado para ocupar seu lugar. Isso, segundo Marcos, aconteceria no próximo mês de novembro e ele indicara Darcy para substituí-lo, o que justificava a cobrança maior do Sargento Hélcio, exigindo-lhe melhores resultados no período de treinamento pelo qual passava. Não sabia que alguns de seus trejeitos tinham sido observados pelo Sargento:
- Escute, Cabo. Você não acha esse soldado meio esquisito?
- Sargento, eu só acho que o Soldado Darcy, acima de tudo, é competente e atento às ordens que recebe.
- Certo... Só que se der algum ataque de viadagem aqui dentro, vou jogá-lo pela janela...
Todos riram, mas a presença de Darcy na Sargenteação era certa e assim, um mês antes da baixa do Cabo, já estava entre eles, aprendendo os serviços.
Com a saída de Marcos, Darcy passou longo período sem encontrá-lo. Dedicava-se às atividades do Quartel e embora o pai esperasse que ele seguisse a carreira militar, seus sonhos eram outros. Para evitar problemas de convivência com a família e amigos, guardava seus planos de se tornar bailarino em segredo.
Num fim de tarde encontrou-se com Marcos. Este arranjara um emprego muito bom e naquele dia estava recebendo seu primeiro contracheque, razão do convite para que fossem a uma churrascaria.
Jantaram e assistiram ao show onde enquanto ouviam o cantor, bailarinos dançavam num patamar mais elevado, atrás do artista. Incentivado pelas danças e cervejas bebidas, acabou contando seu segredo para o amigo, que o ouviu sem demonstrar qualquer surpresa. Ao contrário, aconselhou-o a procurar um professor ou alguém que conhecesse melhoro assunto, pois achava temerário que Darcy continuasse a se exercitar fundamentado, apenas, no que lia em revistas ou assistia em entrevistas e filmes. Naquele momento se justificava a musculatura desenvolvida dos braços e pernas de Darcy, obtidas em exercícios de alongamento e pesos, mantendo a elasticidade do corpo bem acima do naturalmente exigido e que visava dar-lhe condições de saltar ou sustentar uma bailarina no ar, sem qualquer demonstração de esforço.
Jamais tivera qualquer contato sexual. Tanto mulheres como homens, não o atraíam. Gostava, sim, de observar belos corpos harmônicos e bem trabalhados. Nada além disso. Por outro lado, procurava disciplinar-se e evitar os trejeitos afeminados que, muitas vezes, fizeram-no alvo de chacotas, principalmente enquanto morou na favela, de triste lembrança.
Marcos, sabedor dos sonhos de Darcy, procurou um amigo de seu pai, empresário teatral. Foi recebido calorosamente por Ismael que o conhecia desde criança e contou-lhe os planos do amigo. Conforme esperava, sofreu provocações por parte de Ismael, já que a impressão geral era a de que todo bailarino era homossexual e ter um amigo assim, não seria um bom cartão de visitas.
O importante é ter saído de lá com a carta de apresentação pretendida, endereçada a Neuza, bailarina famosa e diretora de uma companhia de danças. Tudo isso se deu sem o conhecimento do amigo. Assim, quando lhe entregou a carta, viu os olhos de Darcy cheios de lágrimas e seu sorriso rasgar a boca enorme.
Na data combinada, lá estava o rapaz frente-a-frente com Neuza. Mulata como ele, magra e com porte nobre. Leu a mensagem de Ismael como se não soubesse do que se tratava e examinou Darcy dos pés à cabeça, ignorando seu nervosismo. Segurou-o pela mão e levou-o para outra sala, imensa e sem móveis, exceto por um aparelho de som pousado sobre um banco tosco e fez com que se ouvisse um samba. Virou-se para Darcy e disse friamente:
- Vá lá, dance...
E Darcy dançou. Veio depois um jazz e, finalmente uma valsa clássica. O jovem se entregou de corpo e alma aos movimentos que seus reflexos ditavam. Repentinamente a música parou. Viu Neuza com os braços cruzados, olhando-o séria:
- O quê faz na vida, rapaz?
- No momento, nada. Acabo de me desligar do Exército...
Neuza interrompeu a conversa e caminhou na direção do escritório em que o tinha recebido. De costas e com um gesto de mãos, disse:
- Esteja aqui amanhã por volta das duas horas. Não coma nada pesado no almoço. Quero fazer uns testes com você.
Embora nada houvesse de concreto, o convite para retornar aumentou as esperanças de Darcy. Procurou por Marcos, mas não conseguiu encontrá-lo. Queria dividir a sensação de vitória com alguém que entendesse a importância daquele momento. Foi uma longa noite. No dia seguinte lá estava, duas em ponto, enfrentando o olhar sério de Neuza e a curiosidade de dois jovens mais ou menos de sua idade, que trajavam malhas apropriadas para a dança.
- Este é o rapaz de quem falei, disse a mulher para os outros que o olhavam curiosos.
Virou-se em direção de Darcy e ordenou, apontando para a porta onde se lia “Vestiário Masculino”:
- Vá até lá e troque-se. Tem uma malha pendurada. Vista e volte logo.
Pela primeira vez o rapaz se viu dentro de uma roupa daquelas. Justa como se formasse uma outra pele, não permitia que passasse despercebido o mínimo acúmulo de gordura. Imaginou, divertido, o Sargento Hélcio, com aquela barriga de bebedor de cerveja, num traje igual. Voltou sorrindo para a sala onde o grupo o esperava.
Momentos depois fazia exercícios de alongamento nas barras paralelas, acompanhando os movimentos dos outros dois companheiros e com intervenções constantes de Neuza, corrigindo sua postura. O exercício seguinte foi observar a dança dos dois bailarinos e tentar imitar seus movimentos num exercício solo. No momento em que a música parou, recebeu ordens para tomar um banho e retornar ao escritório.
Os músculos de Darcy doíam, o suor lavava seu corpo, mas estava feliz por ter enfrentado aquela experiência. Mesmo que não fosse aprovado, sabia o caminho a seguir.
- Você se saiu melhor que o esperado, disse Neuza. Já tinha alguma experiência com a dança?
Darcy contou-lhe dos exercícios que praticava às escondidas e as poucas aulas recebidas numa escola recomendada por um amigo. Naquele momento iniciava-se a carreira de um bailarino que não considerava a dança como um trabalho, mas como uma missão.
O jovem dedicava-se com um afinco cada vez maior, cumprindo as instruções e ensinamentos recebidos e esmerava-se no quanto podia, a cada gesto ou posição. O dinheiro era pouco, mas ajudava muito em casa, embora o velho Dirceu não apoiasse aquele negócio de filho bailarino. Se não apoiava, também não impedia e assim, Darcy crescia mais e mais.
Vieram as apresentações da Companhia de Danças, as viagens pelo Brasil e pelo mundo. Pode conhecer diversos países e o estudo da língua inglesa, exigido por Neuza como parte integrante da formação de qualquer bailarino, facilitava suas andanças.
Evidente que os preconceitos eram inerentes à profissão escolhida. Raciais em alguns lugares, sexuais em outros e ambos mais adiante. Isso não o incomodava. Sua cor e seu porte nos países nórdicos, por exemplo, promoviam interesse e até excitação por parte da platéia feminina.
Numa dessas viagens, recebeu convite de uma Companhia francesa de prestígio internacional para integrar seus quadros. Relutou, mas foi incentivado pela própria Neuza, entusiasmada com a possibilidade de um futuro brilhante para seu pupilo.
E lá se foi Darcy dançar para o mundo. Embora longe do Brasil por quase cinco anos, enviava suas economias para o pai que, após comprar um confortável apartamento na zona sul, adquiriu outros imóveis em bairros valorizados da cidade. “Afinal”, dizia Dirceu, “a gente não tem cultura, mas não é burro”. Assim garantia para o filho um futuro tranqüilo, quando a vida de bailarino acabasse.
Finalmente, a “tournée” incluiu o Brasil em suas andanças. Passaram por diversas capitais e concluíram as apresentações no Rio de Janeiro. Após conhecer a nova residência a aprovar as excelentes aplicações feitas pelo pai, Darcy aproveitou um momento de folga para procurar pelo velho amigo Marcos.
Afinal, se tudo aquilo estava acontecendo, era graças ao primeiro empurrão dado por ele. Guardava um carinho e uma gratidão profundos pelo amigo e, em seu inconsciente, torcia por poder fazer algo que facilitasse a vida de Marcos. Podia-se, naquele momento, considerar um homem rico.
Chegou à velha rua num táxi e com vestes mais discretas que às de costume, bateu palmas no portão da casa do amigo. Foi atendido por uma senhora que reconheceu como a mãe de Marcos. A mulher não se lembrava dele e com a traquilidade dos conformados, informou-lhe que Marcos morrera atropelado há cerca de dois anos.
Saiu dali em choque. Claro que jamais escreveu ou pediu notícias do companheiro, mas nunca poderia imaginar que acontecesse algo assim... Estava com vinte e cinco anos e Marcos seria, no máximo, um ano mais velho...
Na noite seguinte, deu-se a apresentação final da famosa troupe. Teatro Municipal lotado e Darcy, primeiro bailarino, fez uma apresentação elogiadíssima pela crítica e jamais esquecida pelos que a assistiram.
As lágrimas que escorriam por seu rosto quando voltou para agradecer aos aplausos de uma platéia de pé, poderiam ser entendidas como a emoção do artista que voltava vitorioso ao seu país depois de tantas andanças. Só Darcy sabia que era sua última homenagem ao amigo que se fora, aliás, só ele e Marcos que, tinha certeza, estava sorrindo e o aplaudindo também. De onde estivesse.
Evidente que o nível dos novos vizinhos, mais tranqüilos e atenciosos, deixava longe o do pessoal da favela de onde tinham saído. Mas não fora esse o motivo da troca de endereço. Dirceu, além de conseguir os dois cômodos por um aluguel muito baixo, passou a ficar bem mais próximo do centro da cidade, onde trabalhava como ascensorista num prédio comercial. Tinha, ainda, o filho Darcy, que podia ir a pé para o Quartel no qual cumpria o Serviço Militar. Ondina com o passar do tempo, certamente conseguiria um emprego de doméstica nas redondezas. Era só esperar que ficasse um pouco mais conhecida.
Darcy foi quem mais aproveitou a mudança. Ali podia usar as roupas que gostava, sem ouvir piadinhas idiotas dos malandros da favela. Esguio, ombros largos, tinha a boca rasgada demais para o seu gosto, mas no resto, até que se evidenciava entre os da sua idade.
Ainda estava naquele período mais duro do Quartel. Os primeiros três meses eram os que os exercícios, ordem unida e a prática de tiro esgotavam as reservas físicas dos recrutas. Depois, sabia, o grupo seria distribuído entre os pelotões e praticamente só faria os trabalhos internos, nos quais os oficiais e sargentos não queriam sujar as mãos. Havia, também, os serviços burocráticos em que se aproveitavam os de melhor nível cultural e, melhor ainda, se fossem bons digitadores. Ali depositava suas esperanças. Já iniciara o segundo grau e aprendera digitação ajudando uma vizinha a fazer trabalhos para alguns escritórios, aproveitando para defender uma grana extra, para seus gastos com diversão, que não tinha coragem de pedir ao pai.
Sabia que estava sendo observado pela Sargenteação, espécie de secretaria do Comando da Companhia, a partir do momento que travou conhecimento com o Cabo Marcos, por coincidência morador próximo do seu novo endereço. Embora evitasse ir e voltar do Quartel em sua companhia – o Cabo não gostava que o acompanhassem nesse trajeto - sempre o encontrava à noite, quando batiam longos papos.
Foi assim que tomou conhecimento da tradição que o Sargento Hélcio estabelecera. A Sargenteação era composta por ele, dois cabos e um soldado, este uma espécie de contínuo do “escritório”. Quando o soldado era promovido a Cabo ou ao dar baixa, indicava outro soldado para ocupar seu lugar. Isso, segundo Marcos, aconteceria no próximo mês de novembro e ele indicara Darcy para substituí-lo, o que justificava a cobrança maior do Sargento Hélcio, exigindo-lhe melhores resultados no período de treinamento pelo qual passava. Não sabia que alguns de seus trejeitos tinham sido observados pelo Sargento:
- Escute, Cabo. Você não acha esse soldado meio esquisito?
- Sargento, eu só acho que o Soldado Darcy, acima de tudo, é competente e atento às ordens que recebe.
- Certo... Só que se der algum ataque de viadagem aqui dentro, vou jogá-lo pela janela...
Todos riram, mas a presença de Darcy na Sargenteação era certa e assim, um mês antes da baixa do Cabo, já estava entre eles, aprendendo os serviços.
Com a saída de Marcos, Darcy passou longo período sem encontrá-lo. Dedicava-se às atividades do Quartel e embora o pai esperasse que ele seguisse a carreira militar, seus sonhos eram outros. Para evitar problemas de convivência com a família e amigos, guardava seus planos de se tornar bailarino em segredo.
Num fim de tarde encontrou-se com Marcos. Este arranjara um emprego muito bom e naquele dia estava recebendo seu primeiro contracheque, razão do convite para que fossem a uma churrascaria.
Jantaram e assistiram ao show onde enquanto ouviam o cantor, bailarinos dançavam num patamar mais elevado, atrás do artista. Incentivado pelas danças e cervejas bebidas, acabou contando seu segredo para o amigo, que o ouviu sem demonstrar qualquer surpresa. Ao contrário, aconselhou-o a procurar um professor ou alguém que conhecesse melhoro assunto, pois achava temerário que Darcy continuasse a se exercitar fundamentado, apenas, no que lia em revistas ou assistia em entrevistas e filmes. Naquele momento se justificava a musculatura desenvolvida dos braços e pernas de Darcy, obtidas em exercícios de alongamento e pesos, mantendo a elasticidade do corpo bem acima do naturalmente exigido e que visava dar-lhe condições de saltar ou sustentar uma bailarina no ar, sem qualquer demonstração de esforço.
Jamais tivera qualquer contato sexual. Tanto mulheres como homens, não o atraíam. Gostava, sim, de observar belos corpos harmônicos e bem trabalhados. Nada além disso. Por outro lado, procurava disciplinar-se e evitar os trejeitos afeminados que, muitas vezes, fizeram-no alvo de chacotas, principalmente enquanto morou na favela, de triste lembrança.
Marcos, sabedor dos sonhos de Darcy, procurou um amigo de seu pai, empresário teatral. Foi recebido calorosamente por Ismael que o conhecia desde criança e contou-lhe os planos do amigo. Conforme esperava, sofreu provocações por parte de Ismael, já que a impressão geral era a de que todo bailarino era homossexual e ter um amigo assim, não seria um bom cartão de visitas.
O importante é ter saído de lá com a carta de apresentação pretendida, endereçada a Neuza, bailarina famosa e diretora de uma companhia de danças. Tudo isso se deu sem o conhecimento do amigo. Assim, quando lhe entregou a carta, viu os olhos de Darcy cheios de lágrimas e seu sorriso rasgar a boca enorme.
Na data combinada, lá estava o rapaz frente-a-frente com Neuza. Mulata como ele, magra e com porte nobre. Leu a mensagem de Ismael como se não soubesse do que se tratava e examinou Darcy dos pés à cabeça, ignorando seu nervosismo. Segurou-o pela mão e levou-o para outra sala, imensa e sem móveis, exceto por um aparelho de som pousado sobre um banco tosco e fez com que se ouvisse um samba. Virou-se para Darcy e disse friamente:
- Vá lá, dance...
E Darcy dançou. Veio depois um jazz e, finalmente uma valsa clássica. O jovem se entregou de corpo e alma aos movimentos que seus reflexos ditavam. Repentinamente a música parou. Viu Neuza com os braços cruzados, olhando-o séria:
- O quê faz na vida, rapaz?
- No momento, nada. Acabo de me desligar do Exército...
Neuza interrompeu a conversa e caminhou na direção do escritório em que o tinha recebido. De costas e com um gesto de mãos, disse:
- Esteja aqui amanhã por volta das duas horas. Não coma nada pesado no almoço. Quero fazer uns testes com você.
Embora nada houvesse de concreto, o convite para retornar aumentou as esperanças de Darcy. Procurou por Marcos, mas não conseguiu encontrá-lo. Queria dividir a sensação de vitória com alguém que entendesse a importância daquele momento. Foi uma longa noite. No dia seguinte lá estava, duas em ponto, enfrentando o olhar sério de Neuza e a curiosidade de dois jovens mais ou menos de sua idade, que trajavam malhas apropriadas para a dança.
- Este é o rapaz de quem falei, disse a mulher para os outros que o olhavam curiosos.
Virou-se em direção de Darcy e ordenou, apontando para a porta onde se lia “Vestiário Masculino”:
- Vá até lá e troque-se. Tem uma malha pendurada. Vista e volte logo.
Pela primeira vez o rapaz se viu dentro de uma roupa daquelas. Justa como se formasse uma outra pele, não permitia que passasse despercebido o mínimo acúmulo de gordura. Imaginou, divertido, o Sargento Hélcio, com aquela barriga de bebedor de cerveja, num traje igual. Voltou sorrindo para a sala onde o grupo o esperava.
Momentos depois fazia exercícios de alongamento nas barras paralelas, acompanhando os movimentos dos outros dois companheiros e com intervenções constantes de Neuza, corrigindo sua postura. O exercício seguinte foi observar a dança dos dois bailarinos e tentar imitar seus movimentos num exercício solo. No momento em que a música parou, recebeu ordens para tomar um banho e retornar ao escritório.
Os músculos de Darcy doíam, o suor lavava seu corpo, mas estava feliz por ter enfrentado aquela experiência. Mesmo que não fosse aprovado, sabia o caminho a seguir.
- Você se saiu melhor que o esperado, disse Neuza. Já tinha alguma experiência com a dança?
Darcy contou-lhe dos exercícios que praticava às escondidas e as poucas aulas recebidas numa escola recomendada por um amigo. Naquele momento iniciava-se a carreira de um bailarino que não considerava a dança como um trabalho, mas como uma missão.
O jovem dedicava-se com um afinco cada vez maior, cumprindo as instruções e ensinamentos recebidos e esmerava-se no quanto podia, a cada gesto ou posição. O dinheiro era pouco, mas ajudava muito em casa, embora o velho Dirceu não apoiasse aquele negócio de filho bailarino. Se não apoiava, também não impedia e assim, Darcy crescia mais e mais.
Vieram as apresentações da Companhia de Danças, as viagens pelo Brasil e pelo mundo. Pode conhecer diversos países e o estudo da língua inglesa, exigido por Neuza como parte integrante da formação de qualquer bailarino, facilitava suas andanças.
Evidente que os preconceitos eram inerentes à profissão escolhida. Raciais em alguns lugares, sexuais em outros e ambos mais adiante. Isso não o incomodava. Sua cor e seu porte nos países nórdicos, por exemplo, promoviam interesse e até excitação por parte da platéia feminina.
Numa dessas viagens, recebeu convite de uma Companhia francesa de prestígio internacional para integrar seus quadros. Relutou, mas foi incentivado pela própria Neuza, entusiasmada com a possibilidade de um futuro brilhante para seu pupilo.
E lá se foi Darcy dançar para o mundo. Embora longe do Brasil por quase cinco anos, enviava suas economias para o pai que, após comprar um confortável apartamento na zona sul, adquiriu outros imóveis em bairros valorizados da cidade. “Afinal”, dizia Dirceu, “a gente não tem cultura, mas não é burro”. Assim garantia para o filho um futuro tranqüilo, quando a vida de bailarino acabasse.
Finalmente, a “tournée” incluiu o Brasil em suas andanças. Passaram por diversas capitais e concluíram as apresentações no Rio de Janeiro. Após conhecer a nova residência a aprovar as excelentes aplicações feitas pelo pai, Darcy aproveitou um momento de folga para procurar pelo velho amigo Marcos.
Afinal, se tudo aquilo estava acontecendo, era graças ao primeiro empurrão dado por ele. Guardava um carinho e uma gratidão profundos pelo amigo e, em seu inconsciente, torcia por poder fazer algo que facilitasse a vida de Marcos. Podia-se, naquele momento, considerar um homem rico.
Chegou à velha rua num táxi e com vestes mais discretas que às de costume, bateu palmas no portão da casa do amigo. Foi atendido por uma senhora que reconheceu como a mãe de Marcos. A mulher não se lembrava dele e com a traquilidade dos conformados, informou-lhe que Marcos morrera atropelado há cerca de dois anos.
Saiu dali em choque. Claro que jamais escreveu ou pediu notícias do companheiro, mas nunca poderia imaginar que acontecesse algo assim... Estava com vinte e cinco anos e Marcos seria, no máximo, um ano mais velho...
Na noite seguinte, deu-se a apresentação final da famosa troupe. Teatro Municipal lotado e Darcy, primeiro bailarino, fez uma apresentação elogiadíssima pela crítica e jamais esquecida pelos que a assistiram.
As lágrimas que escorriam por seu rosto quando voltou para agradecer aos aplausos de uma platéia de pé, poderiam ser entendidas como a emoção do artista que voltava vitorioso ao seu país depois de tantas andanças. Só Darcy sabia que era sua última homenagem ao amigo que se fora, aliás, só ele e Marcos que, tinha certeza, estava sorrindo e o aplaudindo também. De onde estivesse.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
CRISE, QUE CRISE?
Em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, um vendedor ambulante comenta:
- Crise? Que crise, m´eirmão... Tô vendendo minhas bijuterias que nem água... Passou o Natal e, ó, continuo no mermo ritmo. Se bobear, até contrato mais gente pra fabricar as peças.
Numa cobertura no Leblon, bairro de classe média alta (continuo insistindo: por que rico se intitula desse jeito? ) um grupo toma um uísque admirando a lua que reflete sua luz sobre o mar:
- Crise? Até agora não me afetou, diz um deles. Investi certo e nunca dei ouvidos aos “cantos de sereias” que volta-e-meia surgem no mercado financeiro. Dinheiro fácil, da mesma forma que surge, desaparece. Prefiro navegar em águas calmas a surfar em altas ondas. Quem tem equilíbrio e sabe analisar com frieza, não vai se preocupar nunca.
O empregado que serve aos ricaços, é primo do empresário camelô lá de Madureira. É claro que chega à conclusão de que a tal crise não passa de uma babaquice de um monte de otários espalhados pelo mundo.
Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Na verdade, muita gente séria aconselhada por seus agentes financeiros, viu nas propostas dos bancos bons investimentos cujas bases, entretanto, inexistiam e desabaram quando a verdade apareceu.
Afinal, eram ofertas de negócios de que a metade do mundo aceitou entrar e jamais poderia deixar de levar em conta o passado de seriedade e a segurança de tais instituições. Quando veio a derrocada, fortunas se tornaram pó.
E agora, para onde vai o mundo? As notícias são terríveis para as grandes potências e nem tanto assim para o Brasil, seguindo os analistas e o próprio Presidente Lula.
A nós, humilde maioria da população, nada há a fazer se não deixar o tempo passar e torcer para que nossos empregos se mantenham incólumes ao desespero que nos chega através das notícias da TV.
- Crise? Que crise, m´eirmão... Tô vendendo minhas bijuterias que nem água... Passou o Natal e, ó, continuo no mermo ritmo. Se bobear, até contrato mais gente pra fabricar as peças.
Numa cobertura no Leblon, bairro de classe média alta (continuo insistindo: por que rico se intitula desse jeito? ) um grupo toma um uísque admirando a lua que reflete sua luz sobre o mar:
- Crise? Até agora não me afetou, diz um deles. Investi certo e nunca dei ouvidos aos “cantos de sereias” que volta-e-meia surgem no mercado financeiro. Dinheiro fácil, da mesma forma que surge, desaparece. Prefiro navegar em águas calmas a surfar em altas ondas. Quem tem equilíbrio e sabe analisar com frieza, não vai se preocupar nunca.
O empregado que serve aos ricaços, é primo do empresário camelô lá de Madureira. É claro que chega à conclusão de que a tal crise não passa de uma babaquice de um monte de otários espalhados pelo mundo.
Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Na verdade, muita gente séria aconselhada por seus agentes financeiros, viu nas propostas dos bancos bons investimentos cujas bases, entretanto, inexistiam e desabaram quando a verdade apareceu.
Afinal, eram ofertas de negócios de que a metade do mundo aceitou entrar e jamais poderia deixar de levar em conta o passado de seriedade e a segurança de tais instituições. Quando veio a derrocada, fortunas se tornaram pó.
E agora, para onde vai o mundo? As notícias são terríveis para as grandes potências e nem tanto assim para o Brasil, seguindo os analistas e o próprio Presidente Lula.
A nós, humilde maioria da população, nada há a fazer se não deixar o tempo passar e torcer para que nossos empregos se mantenham incólumes ao desespero que nos chega através das notícias da TV.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
O DESASTRE
A pancada foi forte e depois a escuridão. Não sentiu qualquer dor e quando acordou, estava de pé no asfalto, com os olhos fixados num local poucos metros à frente, para onde corriam muitos homens. Divisou um monte de ferros retorcidos no meio de muitos destroços, aquilo que um dia fora um automóvel. O seu automóvel...
Mas o quê fazia ali parado? Como não se machucara no violentíssimo acidente? Nem um arranhão. Sequer amarrotara a elegante camisa esporte que usava pela primeira vez. Tenta se aproximar, mas as pernas não obedecem. Fica, ali, assistindo os soldados do Corpo de Bombeiros retirarem um corpo do meio daquela lataria disforme. Êi, aquele corpo era o dele. A ficha caiu rapidamente: “Morri... Ih, cara, eu morri...” Disse para si.
Não teve pânico e não viu luz alguma ou qualquer anjo vir recepcioná-lo, como sempre aprendera que aconteceria quando passasse “desta para uma melhor”. Corrigiu: “Daquela para esta aqui...”
Recuperara os movimentos e andava entre os que trabalhavam nos destroços . Só não conseguiu olhar para seu próprio corpo, nessas alturas sobre uma maca e coberto por aquele plástico preto que usam para esconder os cadáveres da curiosidade pública.
Levantou a cabeça na direção do céu, na esperança de ver algo que indicasse o caminho a seguir. Nada. O jeito era acompanhar o corpo, fosse para onde o levassem. Instituto Médico Legal. Nada de bom viu por ali. Corpos nas geladeiras acompanhados pelos que deviam ser seus espíritos, recusando-se a abandona-los. Batiam os queixos e se encolhiam de frio com a temperatura abaixo de zero graus naquelas gavetas. Ele não; ficavam como se paralisados; ele andava por ali embora não procurasse nada.
Eis que chega sua mulher para reconhecer o corpo. Engasga num soluço quando descobrem seu rosto. Afunda a cabeça no peito do pai – seu sogro – que deveria estar exultante com sua morte. Afinal, não gostava mesmo dele. Passou por sua cabeça a possibilidade de dar um susto naquele velho chato, mas não sabia como fazê-lo.
Dali para um velório de luxo – pelo menos estavam gastando seu dinheiro de forma a lhe prestarem uma última homenagem - onde a mulher acabou trocando o ombro do pai pelo do... Epa! Aquele cara é o Dida, namorado dela antes de se conhecerem... E que liberdade era aquela, de cabecinha no ombro e o troglodita alisando seu braço. Será que já havia alguma coisa antes da morte dele? Chegou mais perto e ouviu uma frase definitiva: “Calma, meu amor, dizia o Dida, agora que ele se foi, pode contar comigo definitivamente”.
A raiva era tanta, que deu um grito daqueles, tirados do fundo do peito. Foi aí que acordou. A mulher, assustada, sentada na cama a seu lado e ele com a camisa do pijama empapada de suor.
- O que foi, querido... Disse ela... Foi um pesadelo?
A resposta veio imediatamente:
- Espero que tenha sido, sua...Sua... Falsa.
Deitou-se novamente e rapidamente adormeceu, enquanto a mulher, com os olhos arregalados, perdeu o sono, definitivamente.
Mas o quê fazia ali parado? Como não se machucara no violentíssimo acidente? Nem um arranhão. Sequer amarrotara a elegante camisa esporte que usava pela primeira vez. Tenta se aproximar, mas as pernas não obedecem. Fica, ali, assistindo os soldados do Corpo de Bombeiros retirarem um corpo do meio daquela lataria disforme. Êi, aquele corpo era o dele. A ficha caiu rapidamente: “Morri... Ih, cara, eu morri...” Disse para si.
Não teve pânico e não viu luz alguma ou qualquer anjo vir recepcioná-lo, como sempre aprendera que aconteceria quando passasse “desta para uma melhor”. Corrigiu: “Daquela para esta aqui...”
Recuperara os movimentos e andava entre os que trabalhavam nos destroços . Só não conseguiu olhar para seu próprio corpo, nessas alturas sobre uma maca e coberto por aquele plástico preto que usam para esconder os cadáveres da curiosidade pública.
Levantou a cabeça na direção do céu, na esperança de ver algo que indicasse o caminho a seguir. Nada. O jeito era acompanhar o corpo, fosse para onde o levassem. Instituto Médico Legal. Nada de bom viu por ali. Corpos nas geladeiras acompanhados pelos que deviam ser seus espíritos, recusando-se a abandona-los. Batiam os queixos e se encolhiam de frio com a temperatura abaixo de zero graus naquelas gavetas. Ele não; ficavam como se paralisados; ele andava por ali embora não procurasse nada.
Eis que chega sua mulher para reconhecer o corpo. Engasga num soluço quando descobrem seu rosto. Afunda a cabeça no peito do pai – seu sogro – que deveria estar exultante com sua morte. Afinal, não gostava mesmo dele. Passou por sua cabeça a possibilidade de dar um susto naquele velho chato, mas não sabia como fazê-lo.
Dali para um velório de luxo – pelo menos estavam gastando seu dinheiro de forma a lhe prestarem uma última homenagem - onde a mulher acabou trocando o ombro do pai pelo do... Epa! Aquele cara é o Dida, namorado dela antes de se conhecerem... E que liberdade era aquela, de cabecinha no ombro e o troglodita alisando seu braço. Será que já havia alguma coisa antes da morte dele? Chegou mais perto e ouviu uma frase definitiva: “Calma, meu amor, dizia o Dida, agora que ele se foi, pode contar comigo definitivamente”.
A raiva era tanta, que deu um grito daqueles, tirados do fundo do peito. Foi aí que acordou. A mulher, assustada, sentada na cama a seu lado e ele com a camisa do pijama empapada de suor.
- O que foi, querido... Disse ela... Foi um pesadelo?
A resposta veio imediatamente:
- Espero que tenha sido, sua...Sua... Falsa.
Deitou-se novamente e rapidamente adormeceu, enquanto a mulher, com os olhos arregalados, perdeu o sono, definitivamente.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
FAZ MUITO TEMPO
Faz muito tempo.
Lembranças inexplicáveis retornam, sem razão alguma que as motivasse. Simplesmente surgem. Mostravam-no ainda um menino e os que estavam à sua volta, somente imagens embaçadas. Só aquela figura se fazia clara e bem definida. Severa, mas dona de uma suavidade única para conversar com as crianças para as quais dava aulas na velha escola suburbana.
Era quieto, terrivelmente disciplinado, mesmo para os tempos em que a educação que lhe era imposta ainda guardava resquícios do século XIX. Temeroso e submisso granjeava a simpatia dos que com ele conviviam até aquele dia, onde alguma coisa mudou e o fez mais respeitado entre os companheiros de turma.
A própria professora, que lhe volta à mente, passou a ter um outro olhar para o garoto que, momentos antes, era o exemplo sempre citado, não só pelas notas acima da média, mas também pela quietude e mansidão.
Foi uma explosão momentânea, onde a personalidade contida pelas imposições familiares, veio à tona surpreendendo todo mundo. Ali aprendeu o significado do velho ditado: ”Não cutuque onça com vara curta”. Afinal, não podia admitir que fosse interpretado como um covardão sem personalidade sujeitando-se a qualquer coisa que lhe impusessem. Ninguém ainda sabia, mas uma atitude dessas contra ele era um terrível equívoco. Após uma discussão sem a menor importância, um atordoante tapa no rosto e a reação imediata. Não sabia lutar, mas aprendeu ali; nunca brigara com alguém, mas a fúria da reação parecia desmenti-lo. Com um soco cuja potência até ele mesmo duvidava, jogou o oponente por terra e bateu, chutou, cuspiu, até que um adulto, não se lembra quem, conseguisse retira-lo de sobre o corpo do outro menino, em tese maior e mais forte que ele, nessas alturas assustado e com vistosas escoriações e hematomas que começavam a se formar.
Levados à presença da Diretora, a “vítima” assumiu sua culpa, até porque diversos alunos amontoavam-se na porta do Gabinete, prontos a darem seus testemunhos contra ele. O jovem oponente era conhecido por atos de valentia e delinqüências extemporâneas. Sua derrota fazia desabar o mito construído graças às violências contra outros colegas.
Após ouvir as severas reprimendas da velha senhora, o novo herói da garotada voltou à sala de aula, já que o tempo de recreio se extinguira há muito. Recebido por um silêncio tumular e o sorriso de conivência e admiração de alguns, encaminhou-se até a professora com o intuito de se desculpar, porém ela não deixou que falasse e dirigiu-se à turma de forma eloqüente.
Sem incentivar diretamente seus atos de minutos antes, chamou a atenção da turma para que se sentissem fortes nos momentos da vida onde isso era exigido; da rigidez de atitudes que demonstrassem personalidade e segurança. Enfim, sem aplaudir diretamente a reação do aluno, fez dela o exemplo para entenderem a necessidade de imporem suas razões e motivos nos momentos oportunos.
Passou-se algum tempo e chegou ao conhecimento dos pais dos meninos que a professora, dias após esses acontecimentos, desquitara-se. Teria de enfrentar uma sociedade preconceituosa a respeito de mulheres separadas, mas o fez. Só muito tempo depois, soube-se que dissera ter aprendido com um aluno o momento em que o amor próprio não poderia ser esquecido.
Uma criança dando exemplos de vida ao adulto. Pensando bem, quantas não foram as vezes em que em nossas vidas fatos semelhantes não nos levaram a tomar decisões através de soluções trazidas por elas?
A vida corre, a recordação torna e, de uma forma ou outra, fica a história que traz uma mensagem efetiva. Bem vinda, portanto, a volta de tais imagens dos velhos tempos da escola primária.
Lembranças inexplicáveis retornam, sem razão alguma que as motivasse. Simplesmente surgem. Mostravam-no ainda um menino e os que estavam à sua volta, somente imagens embaçadas. Só aquela figura se fazia clara e bem definida. Severa, mas dona de uma suavidade única para conversar com as crianças para as quais dava aulas na velha escola suburbana.
Era quieto, terrivelmente disciplinado, mesmo para os tempos em que a educação que lhe era imposta ainda guardava resquícios do século XIX. Temeroso e submisso granjeava a simpatia dos que com ele conviviam até aquele dia, onde alguma coisa mudou e o fez mais respeitado entre os companheiros de turma.
A própria professora, que lhe volta à mente, passou a ter um outro olhar para o garoto que, momentos antes, era o exemplo sempre citado, não só pelas notas acima da média, mas também pela quietude e mansidão.
Foi uma explosão momentânea, onde a personalidade contida pelas imposições familiares, veio à tona surpreendendo todo mundo. Ali aprendeu o significado do velho ditado: ”Não cutuque onça com vara curta”. Afinal, não podia admitir que fosse interpretado como um covardão sem personalidade sujeitando-se a qualquer coisa que lhe impusessem. Ninguém ainda sabia, mas uma atitude dessas contra ele era um terrível equívoco. Após uma discussão sem a menor importância, um atordoante tapa no rosto e a reação imediata. Não sabia lutar, mas aprendeu ali; nunca brigara com alguém, mas a fúria da reação parecia desmenti-lo. Com um soco cuja potência até ele mesmo duvidava, jogou o oponente por terra e bateu, chutou, cuspiu, até que um adulto, não se lembra quem, conseguisse retira-lo de sobre o corpo do outro menino, em tese maior e mais forte que ele, nessas alturas assustado e com vistosas escoriações e hematomas que começavam a se formar.
Levados à presença da Diretora, a “vítima” assumiu sua culpa, até porque diversos alunos amontoavam-se na porta do Gabinete, prontos a darem seus testemunhos contra ele. O jovem oponente era conhecido por atos de valentia e delinqüências extemporâneas. Sua derrota fazia desabar o mito construído graças às violências contra outros colegas.
Após ouvir as severas reprimendas da velha senhora, o novo herói da garotada voltou à sala de aula, já que o tempo de recreio se extinguira há muito. Recebido por um silêncio tumular e o sorriso de conivência e admiração de alguns, encaminhou-se até a professora com o intuito de se desculpar, porém ela não deixou que falasse e dirigiu-se à turma de forma eloqüente.
Sem incentivar diretamente seus atos de minutos antes, chamou a atenção da turma para que se sentissem fortes nos momentos da vida onde isso era exigido; da rigidez de atitudes que demonstrassem personalidade e segurança. Enfim, sem aplaudir diretamente a reação do aluno, fez dela o exemplo para entenderem a necessidade de imporem suas razões e motivos nos momentos oportunos.
Passou-se algum tempo e chegou ao conhecimento dos pais dos meninos que a professora, dias após esses acontecimentos, desquitara-se. Teria de enfrentar uma sociedade preconceituosa a respeito de mulheres separadas, mas o fez. Só muito tempo depois, soube-se que dissera ter aprendido com um aluno o momento em que o amor próprio não poderia ser esquecido.
Uma criança dando exemplos de vida ao adulto. Pensando bem, quantas não foram as vezes em que em nossas vidas fatos semelhantes não nos levaram a tomar decisões através de soluções trazidas por elas?
A vida corre, a recordação torna e, de uma forma ou outra, fica a história que traz uma mensagem efetiva. Bem vinda, portanto, a volta de tais imagens dos velhos tempos da escola primária.
domingo, 19 de outubro de 2008
O CRAQUE
Diz um conhecido escritor e humorista, que “chato é aquele cara que a gente pergunta como vai e ele conta”. Titinho não chegava a tanto, mas as mães e avós do bairro o consideravam um menino bonzinho. Nada melhor que isso para todos saberem que ali estava um chato.
Titinho, cujo nome de batismo era Alberto e ninguém sabia onde e quando surgira o tal apelido, sempre foi o melhor aluno da turma. Do primário ao vestibular sempre ostentando medalhas douradas, distinção dada aos mais aplicados. Passou para a faculdade de engenharia no primeiro lugar, o que lhe rendeu entrevistas nos rádios e jornais da cidade. Respondia a todos com a mesma falsa modéstia: “Sei lá... Acho que foi pura sorte”. Noites de sono perdidas, exercícios exaustivamente repetidos, livros lidos e relidos e, no final, “pura sorte”. Além de “nerd” era um chato.
Falava com o rosto quase colado ao do ouvinte, muitas vezes obrigando a “vítima” a dar um ou dois passos para trás; arrumava o colarinho do uniforme dos colegas enquanto discorria sobre assuntos longos e sem qualquer interesse. Sua comida era escolhida com atenção pela mãe, já que detestava tudo que os outros familiares adoravam e por aí tocava sua vidinha sem sal.
Mas nos tempos de garoto, Titinho também tinha suas frustrações. Adorava futebol, mas só conseguia jogar quando a bola era dele. Fora isso, apenas se algum dos meninos saía mais cedo e, mesmo assim, era imediatamente deslocado para o gol, lugar nacionalmente guardado para aqueles cuja capacidade de jogar são consideradas nulas pelos demais atletas.
Chegava sempre em casa muito suado, jogando ou não, já que torcia contra os dois times, enquanto amargava a reserva.
Vez por outra, o time da rua disputava partidas em campos espalhados pelos bairros próximos. Na estação do Sampaio, naqueles tempos de um Rio de Janeiro menos explorado demograficamente, lá do outro lado da linha férrea, existia uma grande área onde os campos ficavam uns ao lado dos outros. Ali se pagava aluguel para usá-los e a garotada juntava as economias para participar da festa. Titinho sempre estava entre eles, mas via de regra, ocupava a posição de reserva do goleiro.
Aproveitando as férias escolares do meio do ano, havia um torneio entre as equipes de diversos bairros. Coisa chique, com os atletas uniformizados, de meias e chuteiras. Os juízes escalados pertenciam à Federação e, diziam, muitos olheiros de grandes clubes assistiam às partidas procurando identificar novos valores para o futebol carioca.
Havia, também, grande movimentação de familiares, principalmente nos jogos dos fins de semana, orgulhosos pela participação de seus filhos, sobrinhos e netos queridos. Afinal, eram eles quase sempre os financiadores dos uniformes, aluguel dos campos e, até, do lucro que ia para o bolso de alguém.
Aquele mês de julho tinha sido particularmente desagradável. Choveu muito e o frio fora exagerado para os padrões cariocas. Se os moradores da cidade do Rio de Janeiro já se agasalham com temperaturas abaixo dos vinte e poucos graus, imaginem com os termômetros marcando inusuais quatorze, quinze graus. Só faltavam surgir botas para neve e os esquis. E foi sob esse clima que transcorreu o campeonato.
O time da velha rua, se não era o pior também não poderia ser colocado entre as equipes que se destacavam, como às do Campo Grande e a do Serra Negra, sempre disputando entre si os primeiros lugares. As chuva e os campos enlameados, acabaram por nivelar “por baixo” as disputas e, assim, a equipe de Titinho, reserva do goleiro, foi indo. A semifinal contra o Campo Grande terminou com o escore de um a zero surpreendente, colocando a turma da rua para enfrentar o Serra Negra, que encaçapara seis gols no último adversário, na final a ser realizada no domingo seguinte.
Todos sabiam que o Serra Negra era uma equipe organizada por um bicheiro lá dos lados da subida da Serra de Petrópolis e que tinha, até, treinador remunerado. Segundo as más línguas, os jogadores também recebiam uma “ajuda de custo” e, dali, já tinham saído craques para os times da primeira divisão. Para aquele jogo, Bocão, o tal bicheiro, estabeleceu concentração. Alugou um sítio pelas bandas de Xerém e lá ficaram os componentes da equipe, incluindo o próprio Bocão, figura pouco presente nos treinamentos, embora mantendo sempre por perto um de seus homens de confiança.
Finalmente chegou o domingo que, para variar, estava chuvoso e com um vento frio soprando forte, principalmente no descampado formado pelo conjunto de praças esportivas do Sampaio. A torcida do Serra Negra lotou um ônibus, enquanto os familiares do time de Titinho, postavam-se do outro lado do campo, intimidados pelas bandeiras e ferozes gritos de guerra da torcida adversária. Bocão, com o tradicional colar de ouro de um dedo de grossura, charuto na mão e sob o guarda-chuva que um de seus auxiliares segurava e o acompanhava em todos os seus movimentos, evitando que um só pingo caísse na camisa ou nos óculos escuros do chefe, lá estava. Postado à beira do campo, na linha que divide o centro do gramado, falava mais que o próprio técnico.
Para o timinho da rua, já era uma vitória ter chegado às finais do torneio e, agora, era só armar um bom esquema defensivo para perder de pouco.
O jogo começou e se não fosse a lama, que provocava escorregões e quedas ridículas – inclusive do juiz – e o Serra Negra teria imposto uma considerável vantagem no primeiro tempo, que acabou zero-a-zero.
A partida já ia pela metade do segundo tempo, quando o goleiro Batista, que defendera tudo até ali, quebrou o dedo mínimo da mão direita, tendo sido levado imediatamente para o hospital, no carrão cedido pelo bicheiro. Um ar de desânimo tomou conta de todos, quando Titinho entrou em campo, vestido de preto, após um grotesco aquecimento.
Reiniciada a partida e para alívio dos rapazes do time da rua, o Serra Negra arrefeceu um pouco, dando tempo para que respirassem. Mas aos trinta e cinco minutos, ouve-se um grito. A voz grave de Bocão anunciava: “Tá na hora, gente... Todo mundo pra frente!
Ali começava um intenso bombardeio contra o gol de Titinho. Felizmente a pontaria dos atacantes do Serra Negra não estava boa e as bolas que chegavam até ele, eram fracas, amortecidas pelas poças d’água ou atrasadas por seus próprios defensores.
Faltando menos de cinco minutos para o final, o centro-avante dribla dois zagueiros e parte com a bola dominada na direção do gol de Titinho.
- Sai, vai nele!
O rapaz, indeciso, finalmente resolveu sair de encontro ao adversário. Três ou quatro passos e escorrega na lama. Com a impulsão, sentiu seu corpo voando para a frente, enquanto o atacante enchia o pé. A torcida exultou. A bola explodiu no peito do goleiro e voltou para o meio do campo. Titinho, com o peito ardendo, voltou para o gol ouvindo um impropério de Bocão e gritos de “dá-lhe garoto”ou “beleza”dos companheiros. Pouco depois o jogo acabava e o resultado seria decidido na cobrança de pênaltis.
Cinco chutes para cada time. O primeiro a marcar foi o pessoal da rua. O Serra Negra empatou. Novo gol da meninada e outro empate do “Serra”. Aí deu-se o milagre. Após o terceiro gol de seu time, Titinho resolveu ficar imóvel no próximo chute, fazendo, apenas, o popular “golpe de vista”. Até ali sempre se atirara para o lado errado, chafurdando na lama. Que se danassem todos. Estava molhado até na alma e eles que fizessem o que bem entendessem. O tal centro-avante, aquele do chute forte, soltou seu petardo bem no centro do gol, na direção do peito de Titinho, que só ouviu o barulho e, novamente, a ardência do couro batendo na pele. Lá foi a bola, de novo, parar no meio do campo.
A meninada passou a acreditar na possibilidade de uma vitória, embora Titinho efusivamente festejado pelos companheiros, continuasse a repetir: “Foi pura sorte...”
Novo gol da turma da rua. Era uma questão de vida ou morte para o time de Bocão. Se errassem a próxima penalidade, o campeonato estaria perdido. Zunim, o “becão” do Serra Negra, ajeitou a bola e olhou para Titinho como se dissesse: “Quero ver se agarra essa...” Tomou uma grande distância e partiu. O goleiro, naqueles poucos segundos, pensou: “Finjo que vou para a esquerda e me atiro para a direita”. Só não contava que a lama fizesse seu pé falsear e o fingimento tornar-se real, fazendo-o cair para a esquerda. Um salto, diríamos, milimétrico, mas o suficiente para a bola ficar presa entre seu corpo e o chão. Sua equipe ganhara o torneio graças a ele.
Foi carregado em triunfo e recebeu uma medalha a mais, como o “jogador revelação do campeonato”. Lá pelas tantas, um sujeito entregou-lhe um cartão:
- Se quiser fazer testes num time grande, é só me procurar... Você tem futuro, garoto.
Agora Titinho tinha uma história com comprovantes: medalhas, fotografias e troféu. Nunca mais pediu para jogar, embora sempre convidado. Não queria quebrar o encanto daquele momento glorioso que, sabia, jamais iria se repetir.
Assim, sempre que podia, contava a história para o primeiro desavisado que aparecesse, sem esquecer dos mínimos detalhes de tudo o que acontecera, concluindo sempre com a tradicional “modéstia”:
- Sei lá... Acho que tudo foi pura sorte...
Era um chato.
Titinho, cujo nome de batismo era Alberto e ninguém sabia onde e quando surgira o tal apelido, sempre foi o melhor aluno da turma. Do primário ao vestibular sempre ostentando medalhas douradas, distinção dada aos mais aplicados. Passou para a faculdade de engenharia no primeiro lugar, o que lhe rendeu entrevistas nos rádios e jornais da cidade. Respondia a todos com a mesma falsa modéstia: “Sei lá... Acho que foi pura sorte”. Noites de sono perdidas, exercícios exaustivamente repetidos, livros lidos e relidos e, no final, “pura sorte”. Além de “nerd” era um chato.
Falava com o rosto quase colado ao do ouvinte, muitas vezes obrigando a “vítima” a dar um ou dois passos para trás; arrumava o colarinho do uniforme dos colegas enquanto discorria sobre assuntos longos e sem qualquer interesse. Sua comida era escolhida com atenção pela mãe, já que detestava tudo que os outros familiares adoravam e por aí tocava sua vidinha sem sal.
Mas nos tempos de garoto, Titinho também tinha suas frustrações. Adorava futebol, mas só conseguia jogar quando a bola era dele. Fora isso, apenas se algum dos meninos saía mais cedo e, mesmo assim, era imediatamente deslocado para o gol, lugar nacionalmente guardado para aqueles cuja capacidade de jogar são consideradas nulas pelos demais atletas.
Chegava sempre em casa muito suado, jogando ou não, já que torcia contra os dois times, enquanto amargava a reserva.
Vez por outra, o time da rua disputava partidas em campos espalhados pelos bairros próximos. Na estação do Sampaio, naqueles tempos de um Rio de Janeiro menos explorado demograficamente, lá do outro lado da linha férrea, existia uma grande área onde os campos ficavam uns ao lado dos outros. Ali se pagava aluguel para usá-los e a garotada juntava as economias para participar da festa. Titinho sempre estava entre eles, mas via de regra, ocupava a posição de reserva do goleiro.
Aproveitando as férias escolares do meio do ano, havia um torneio entre as equipes de diversos bairros. Coisa chique, com os atletas uniformizados, de meias e chuteiras. Os juízes escalados pertenciam à Federação e, diziam, muitos olheiros de grandes clubes assistiam às partidas procurando identificar novos valores para o futebol carioca.
Havia, também, grande movimentação de familiares, principalmente nos jogos dos fins de semana, orgulhosos pela participação de seus filhos, sobrinhos e netos queridos. Afinal, eram eles quase sempre os financiadores dos uniformes, aluguel dos campos e, até, do lucro que ia para o bolso de alguém.
Aquele mês de julho tinha sido particularmente desagradável. Choveu muito e o frio fora exagerado para os padrões cariocas. Se os moradores da cidade do Rio de Janeiro já se agasalham com temperaturas abaixo dos vinte e poucos graus, imaginem com os termômetros marcando inusuais quatorze, quinze graus. Só faltavam surgir botas para neve e os esquis. E foi sob esse clima que transcorreu o campeonato.
O time da velha rua, se não era o pior também não poderia ser colocado entre as equipes que se destacavam, como às do Campo Grande e a do Serra Negra, sempre disputando entre si os primeiros lugares. As chuva e os campos enlameados, acabaram por nivelar “por baixo” as disputas e, assim, a equipe de Titinho, reserva do goleiro, foi indo. A semifinal contra o Campo Grande terminou com o escore de um a zero surpreendente, colocando a turma da rua para enfrentar o Serra Negra, que encaçapara seis gols no último adversário, na final a ser realizada no domingo seguinte.
Todos sabiam que o Serra Negra era uma equipe organizada por um bicheiro lá dos lados da subida da Serra de Petrópolis e que tinha, até, treinador remunerado. Segundo as más línguas, os jogadores também recebiam uma “ajuda de custo” e, dali, já tinham saído craques para os times da primeira divisão. Para aquele jogo, Bocão, o tal bicheiro, estabeleceu concentração. Alugou um sítio pelas bandas de Xerém e lá ficaram os componentes da equipe, incluindo o próprio Bocão, figura pouco presente nos treinamentos, embora mantendo sempre por perto um de seus homens de confiança.
Finalmente chegou o domingo que, para variar, estava chuvoso e com um vento frio soprando forte, principalmente no descampado formado pelo conjunto de praças esportivas do Sampaio. A torcida do Serra Negra lotou um ônibus, enquanto os familiares do time de Titinho, postavam-se do outro lado do campo, intimidados pelas bandeiras e ferozes gritos de guerra da torcida adversária. Bocão, com o tradicional colar de ouro de um dedo de grossura, charuto na mão e sob o guarda-chuva que um de seus auxiliares segurava e o acompanhava em todos os seus movimentos, evitando que um só pingo caísse na camisa ou nos óculos escuros do chefe, lá estava. Postado à beira do campo, na linha que divide o centro do gramado, falava mais que o próprio técnico.
Para o timinho da rua, já era uma vitória ter chegado às finais do torneio e, agora, era só armar um bom esquema defensivo para perder de pouco.
O jogo começou e se não fosse a lama, que provocava escorregões e quedas ridículas – inclusive do juiz – e o Serra Negra teria imposto uma considerável vantagem no primeiro tempo, que acabou zero-a-zero.
A partida já ia pela metade do segundo tempo, quando o goleiro Batista, que defendera tudo até ali, quebrou o dedo mínimo da mão direita, tendo sido levado imediatamente para o hospital, no carrão cedido pelo bicheiro. Um ar de desânimo tomou conta de todos, quando Titinho entrou em campo, vestido de preto, após um grotesco aquecimento.
Reiniciada a partida e para alívio dos rapazes do time da rua, o Serra Negra arrefeceu um pouco, dando tempo para que respirassem. Mas aos trinta e cinco minutos, ouve-se um grito. A voz grave de Bocão anunciava: “Tá na hora, gente... Todo mundo pra frente!
Ali começava um intenso bombardeio contra o gol de Titinho. Felizmente a pontaria dos atacantes do Serra Negra não estava boa e as bolas que chegavam até ele, eram fracas, amortecidas pelas poças d’água ou atrasadas por seus próprios defensores.
Faltando menos de cinco minutos para o final, o centro-avante dribla dois zagueiros e parte com a bola dominada na direção do gol de Titinho.
- Sai, vai nele!
O rapaz, indeciso, finalmente resolveu sair de encontro ao adversário. Três ou quatro passos e escorrega na lama. Com a impulsão, sentiu seu corpo voando para a frente, enquanto o atacante enchia o pé. A torcida exultou. A bola explodiu no peito do goleiro e voltou para o meio do campo. Titinho, com o peito ardendo, voltou para o gol ouvindo um impropério de Bocão e gritos de “dá-lhe garoto”ou “beleza”dos companheiros. Pouco depois o jogo acabava e o resultado seria decidido na cobrança de pênaltis.
Cinco chutes para cada time. O primeiro a marcar foi o pessoal da rua. O Serra Negra empatou. Novo gol da meninada e outro empate do “Serra”. Aí deu-se o milagre. Após o terceiro gol de seu time, Titinho resolveu ficar imóvel no próximo chute, fazendo, apenas, o popular “golpe de vista”. Até ali sempre se atirara para o lado errado, chafurdando na lama. Que se danassem todos. Estava molhado até na alma e eles que fizessem o que bem entendessem. O tal centro-avante, aquele do chute forte, soltou seu petardo bem no centro do gol, na direção do peito de Titinho, que só ouviu o barulho e, novamente, a ardência do couro batendo na pele. Lá foi a bola, de novo, parar no meio do campo.
A meninada passou a acreditar na possibilidade de uma vitória, embora Titinho efusivamente festejado pelos companheiros, continuasse a repetir: “Foi pura sorte...”
Novo gol da turma da rua. Era uma questão de vida ou morte para o time de Bocão. Se errassem a próxima penalidade, o campeonato estaria perdido. Zunim, o “becão” do Serra Negra, ajeitou a bola e olhou para Titinho como se dissesse: “Quero ver se agarra essa...” Tomou uma grande distância e partiu. O goleiro, naqueles poucos segundos, pensou: “Finjo que vou para a esquerda e me atiro para a direita”. Só não contava que a lama fizesse seu pé falsear e o fingimento tornar-se real, fazendo-o cair para a esquerda. Um salto, diríamos, milimétrico, mas o suficiente para a bola ficar presa entre seu corpo e o chão. Sua equipe ganhara o torneio graças a ele.
Foi carregado em triunfo e recebeu uma medalha a mais, como o “jogador revelação do campeonato”. Lá pelas tantas, um sujeito entregou-lhe um cartão:
- Se quiser fazer testes num time grande, é só me procurar... Você tem futuro, garoto.
Agora Titinho tinha uma história com comprovantes: medalhas, fotografias e troféu. Nunca mais pediu para jogar, embora sempre convidado. Não queria quebrar o encanto daquele momento glorioso que, sabia, jamais iria se repetir.
Assim, sempre que podia, contava a história para o primeiro desavisado que aparecesse, sem esquecer dos mínimos detalhes de tudo o que acontecera, concluindo sempre com a tradicional “modéstia”:
- Sei lá... Acho que tudo foi pura sorte...
Era um chato.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
MEU BRASIL BRASILEIRO...
Existem ocasiões em que por mais dramática seja a situação, uma gargalhada pode amenizar a tensão reinante. Lembro-me de um velho conhecido que estava presente quando do incêndio num grande edifício comercial. No desespero de se verem livres das chamas, as escadas ficaram abarrotadas de gente em pânico. Eis que se ouve um grito:
“Peraí, não empurra porque minha marmita vai entornar...”
Houve breve silêncio, seguido de um murmúrio crescente, que se tornou uma gargalhada geral. A partir daquele momento, o terror diminuiu e em passos coordenados, a multidão começou a descer e todos alcançaram a rua.
Botequins guardam vastíssimo corolário de frases e verdades aleatoriamente ditas. Num deles, havia um quadro pendurado na parede azulejada, onde se lia:
“Aqui, após a terceira dose, todos os problemas do país são resolvidos.”
Um bêbado, desafiando a lei da gravidade e equilibrando o corpo para trás num ângulo de quase quarenta e cinco graus, na porta de um desses “estabelecimentos”, declarava em alto e arrastado som:
- O Brasil tem como exportar eternamente, jogadores de futebol e gente corrupta.
Engraçado? Talvez, mas verdadeiro. Quanto aos quase garotos, agora identificado por “olheiros” do futebol europeu nos campos de várzea interioranos, nada a acrescentar. Cada vez mais vemos e ouvimos falar de figuras e nomes desconhecidos brilhando no Velho Continente, muitos já naturalizados e podendo disputar campeonatos pelas seleções dos países que os adotaram.
E quanto à gente corrupta? Depois de anões, mensalões, sanguessugas e quantas outras denominações dadas aos escândalos políticos dos últimos tempos, podemos encarar de forma mais séria a afirmação do bebum.
Um velho político afirmou em conversa informal da qual meus ouvidos participavam, estar a corrupção de tal forma enredada no poder público, que se puxarmos um fio da “teia”, digamos, numa estatal, poderemos fazer “desabar” um Ministério lá do outro lado da praça dos ditos cujos em Brasília, que nada teria a ver com a função da tal estatal.
Somos um país que tem a corrupção em seus alicerces. Se o Bispo Sardinha, aquele literalmente comido pelos índios, acumulou fortuna cobrando dobrões de ouro para absolver os pecados dos que podiam, pagar, ainda nos primórdios do nosso Brasil varonil, o que não imaginar dos que administram fortunas em investimentos governamentais? Esse é um assunto que poderia encher páginas, nada mais surpreendendo ao sonolento leitor, infelizmente já acostumado com isso.
Difícil acabar com a corrupção? Muito, já que se não for um movimento de grande parte da sociedade, haverá sempre a possibilidade da ação coerciva de autoridades desonestas, pulverizando os que levantaram suas vozes. Exemplo? Lá vai:
- Um empresário forçou o flagrante do pagamento de propina a determinado fiscal. Jornais e TVs mostraram a notícia. Passado menos de um mês, TODOS os órgãos fiscalizadores municipais, estaduais e federais, se abateram sobre o honesto e otário empresário que até hoje, briga na Justiça contestando a chuva de multas arbitrárias daquela época.
E lá vamos nós elegendo novos mandatários sem saber se, um dia, alguém com uma piada igual a do rapaz descendo do prédio em chamas, provoque uma reorganização social espontânea que acabe com esse tenso e vergonhoso estado de coisas.
“Peraí, não empurra porque minha marmita vai entornar...”
Houve breve silêncio, seguido de um murmúrio crescente, que se tornou uma gargalhada geral. A partir daquele momento, o terror diminuiu e em passos coordenados, a multidão começou a descer e todos alcançaram a rua.
Botequins guardam vastíssimo corolário de frases e verdades aleatoriamente ditas. Num deles, havia um quadro pendurado na parede azulejada, onde se lia:
“Aqui, após a terceira dose, todos os problemas do país são resolvidos.”
Um bêbado, desafiando a lei da gravidade e equilibrando o corpo para trás num ângulo de quase quarenta e cinco graus, na porta de um desses “estabelecimentos”, declarava em alto e arrastado som:
- O Brasil tem como exportar eternamente, jogadores de futebol e gente corrupta.
Engraçado? Talvez, mas verdadeiro. Quanto aos quase garotos, agora identificado por “olheiros” do futebol europeu nos campos de várzea interioranos, nada a acrescentar. Cada vez mais vemos e ouvimos falar de figuras e nomes desconhecidos brilhando no Velho Continente, muitos já naturalizados e podendo disputar campeonatos pelas seleções dos países que os adotaram.
E quanto à gente corrupta? Depois de anões, mensalões, sanguessugas e quantas outras denominações dadas aos escândalos políticos dos últimos tempos, podemos encarar de forma mais séria a afirmação do bebum.
Um velho político afirmou em conversa informal da qual meus ouvidos participavam, estar a corrupção de tal forma enredada no poder público, que se puxarmos um fio da “teia”, digamos, numa estatal, poderemos fazer “desabar” um Ministério lá do outro lado da praça dos ditos cujos em Brasília, que nada teria a ver com a função da tal estatal.
Somos um país que tem a corrupção em seus alicerces. Se o Bispo Sardinha, aquele literalmente comido pelos índios, acumulou fortuna cobrando dobrões de ouro para absolver os pecados dos que podiam, pagar, ainda nos primórdios do nosso Brasil varonil, o que não imaginar dos que administram fortunas em investimentos governamentais? Esse é um assunto que poderia encher páginas, nada mais surpreendendo ao sonolento leitor, infelizmente já acostumado com isso.
Difícil acabar com a corrupção? Muito, já que se não for um movimento de grande parte da sociedade, haverá sempre a possibilidade da ação coerciva de autoridades desonestas, pulverizando os que levantaram suas vozes. Exemplo? Lá vai:
- Um empresário forçou o flagrante do pagamento de propina a determinado fiscal. Jornais e TVs mostraram a notícia. Passado menos de um mês, TODOS os órgãos fiscalizadores municipais, estaduais e federais, se abateram sobre o honesto e otário empresário que até hoje, briga na Justiça contestando a chuva de multas arbitrárias daquela época.
E lá vamos nós elegendo novos mandatários sem saber se, um dia, alguém com uma piada igual a do rapaz descendo do prédio em chamas, provoque uma reorganização social espontânea que acabe com esse tenso e vergonhoso estado de coisas.
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