Faz muito tempo.
Lembranças inexplicáveis retornam, sem razão alguma que as motivasse. Simplesmente surgem. Mostravam-no ainda um menino e os que estavam à sua volta, somente imagens embaçadas. Só aquela figura se fazia clara e bem definida. Severa, mas dona de uma suavidade única para conversar com as crianças para as quais dava aulas na velha escola suburbana.
Era quieto, terrivelmente disciplinado, mesmo para os tempos em que a educação que lhe era imposta ainda guardava resquícios do século XIX. Temeroso e submisso granjeava a simpatia dos que com ele conviviam até aquele dia, onde alguma coisa mudou e o fez mais respeitado entre os companheiros de turma.
A própria professora, que lhe volta à mente, passou a ter um outro olhar para o garoto que, momentos antes, era o exemplo sempre citado, não só pelas notas acima da média, mas também pela quietude e mansidão.
Foi uma explosão momentânea, onde a personalidade contida pelas imposições familiares, veio à tona surpreendendo todo mundo. Ali aprendeu o significado do velho ditado: ”Não cutuque onça com vara curta”. Afinal, não podia admitir que fosse interpretado como um covardão sem personalidade sujeitando-se a qualquer coisa que lhe impusessem. Ninguém ainda sabia, mas uma atitude dessas contra ele era um terrível equívoco. Após uma discussão sem a menor importância, um atordoante tapa no rosto e a reação imediata. Não sabia lutar, mas aprendeu ali; nunca brigara com alguém, mas a fúria da reação parecia desmenti-lo. Com um soco cuja potência até ele mesmo duvidava, jogou o oponente por terra e bateu, chutou, cuspiu, até que um adulto, não se lembra quem, conseguisse retira-lo de sobre o corpo do outro menino, em tese maior e mais forte que ele, nessas alturas assustado e com vistosas escoriações e hematomas que começavam a se formar.
Levados à presença da Diretora, a “vítima” assumiu sua culpa, até porque diversos alunos amontoavam-se na porta do Gabinete, prontos a darem seus testemunhos contra ele. O jovem oponente era conhecido por atos de valentia e delinqüências extemporâneas. Sua derrota fazia desabar o mito construído graças às violências contra outros colegas.
Após ouvir as severas reprimendas da velha senhora, o novo herói da garotada voltou à sala de aula, já que o tempo de recreio se extinguira há muito. Recebido por um silêncio tumular e o sorriso de conivência e admiração de alguns, encaminhou-se até a professora com o intuito de se desculpar, porém ela não deixou que falasse e dirigiu-se à turma de forma eloqüente.
Sem incentivar diretamente seus atos de minutos antes, chamou a atenção da turma para que se sentissem fortes nos momentos da vida onde isso era exigido; da rigidez de atitudes que demonstrassem personalidade e segurança. Enfim, sem aplaudir diretamente a reação do aluno, fez dela o exemplo para entenderem a necessidade de imporem suas razões e motivos nos momentos oportunos.
Passou-se algum tempo e chegou ao conhecimento dos pais dos meninos que a professora, dias após esses acontecimentos, desquitara-se. Teria de enfrentar uma sociedade preconceituosa a respeito de mulheres separadas, mas o fez. Só muito tempo depois, soube-se que dissera ter aprendido com um aluno o momento em que o amor próprio não poderia ser esquecido.
Uma criança dando exemplos de vida ao adulto. Pensando bem, quantas não foram as vezes em que em nossas vidas fatos semelhantes não nos levaram a tomar decisões através de soluções trazidas por elas?
A vida corre, a recordação torna e, de uma forma ou outra, fica a história que traz uma mensagem efetiva. Bem vinda, portanto, a volta de tais imagens dos velhos tempos da escola primária.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
domingo, 19 de outubro de 2008
O CRAQUE
Diz um conhecido escritor e humorista, que “chato é aquele cara que a gente pergunta como vai e ele conta”. Titinho não chegava a tanto, mas as mães e avós do bairro o consideravam um menino bonzinho. Nada melhor que isso para todos saberem que ali estava um chato.
Titinho, cujo nome de batismo era Alberto e ninguém sabia onde e quando surgira o tal apelido, sempre foi o melhor aluno da turma. Do primário ao vestibular sempre ostentando medalhas douradas, distinção dada aos mais aplicados. Passou para a faculdade de engenharia no primeiro lugar, o que lhe rendeu entrevistas nos rádios e jornais da cidade. Respondia a todos com a mesma falsa modéstia: “Sei lá... Acho que foi pura sorte”. Noites de sono perdidas, exercícios exaustivamente repetidos, livros lidos e relidos e, no final, “pura sorte”. Além de “nerd” era um chato.
Falava com o rosto quase colado ao do ouvinte, muitas vezes obrigando a “vítima” a dar um ou dois passos para trás; arrumava o colarinho do uniforme dos colegas enquanto discorria sobre assuntos longos e sem qualquer interesse. Sua comida era escolhida com atenção pela mãe, já que detestava tudo que os outros familiares adoravam e por aí tocava sua vidinha sem sal.
Mas nos tempos de garoto, Titinho também tinha suas frustrações. Adorava futebol, mas só conseguia jogar quando a bola era dele. Fora isso, apenas se algum dos meninos saía mais cedo e, mesmo assim, era imediatamente deslocado para o gol, lugar nacionalmente guardado para aqueles cuja capacidade de jogar são consideradas nulas pelos demais atletas.
Chegava sempre em casa muito suado, jogando ou não, já que torcia contra os dois times, enquanto amargava a reserva.
Vez por outra, o time da rua disputava partidas em campos espalhados pelos bairros próximos. Na estação do Sampaio, naqueles tempos de um Rio de Janeiro menos explorado demograficamente, lá do outro lado da linha férrea, existia uma grande área onde os campos ficavam uns ao lado dos outros. Ali se pagava aluguel para usá-los e a garotada juntava as economias para participar da festa. Titinho sempre estava entre eles, mas via de regra, ocupava a posição de reserva do goleiro.
Aproveitando as férias escolares do meio do ano, havia um torneio entre as equipes de diversos bairros. Coisa chique, com os atletas uniformizados, de meias e chuteiras. Os juízes escalados pertenciam à Federação e, diziam, muitos olheiros de grandes clubes assistiam às partidas procurando identificar novos valores para o futebol carioca.
Havia, também, grande movimentação de familiares, principalmente nos jogos dos fins de semana, orgulhosos pela participação de seus filhos, sobrinhos e netos queridos. Afinal, eram eles quase sempre os financiadores dos uniformes, aluguel dos campos e, até, do lucro que ia para o bolso de alguém.
Aquele mês de julho tinha sido particularmente desagradável. Choveu muito e o frio fora exagerado para os padrões cariocas. Se os moradores da cidade do Rio de Janeiro já se agasalham com temperaturas abaixo dos vinte e poucos graus, imaginem com os termômetros marcando inusuais quatorze, quinze graus. Só faltavam surgir botas para neve e os esquis. E foi sob esse clima que transcorreu o campeonato.
O time da velha rua, se não era o pior também não poderia ser colocado entre as equipes que se destacavam, como às do Campo Grande e a do Serra Negra, sempre disputando entre si os primeiros lugares. As chuva e os campos enlameados, acabaram por nivelar “por baixo” as disputas e, assim, a equipe de Titinho, reserva do goleiro, foi indo. A semifinal contra o Campo Grande terminou com o escore de um a zero surpreendente, colocando a turma da rua para enfrentar o Serra Negra, que encaçapara seis gols no último adversário, na final a ser realizada no domingo seguinte.
Todos sabiam que o Serra Negra era uma equipe organizada por um bicheiro lá dos lados da subida da Serra de Petrópolis e que tinha, até, treinador remunerado. Segundo as más línguas, os jogadores também recebiam uma “ajuda de custo” e, dali, já tinham saído craques para os times da primeira divisão. Para aquele jogo, Bocão, o tal bicheiro, estabeleceu concentração. Alugou um sítio pelas bandas de Xerém e lá ficaram os componentes da equipe, incluindo o próprio Bocão, figura pouco presente nos treinamentos, embora mantendo sempre por perto um de seus homens de confiança.
Finalmente chegou o domingo que, para variar, estava chuvoso e com um vento frio soprando forte, principalmente no descampado formado pelo conjunto de praças esportivas do Sampaio. A torcida do Serra Negra lotou um ônibus, enquanto os familiares do time de Titinho, postavam-se do outro lado do campo, intimidados pelas bandeiras e ferozes gritos de guerra da torcida adversária. Bocão, com o tradicional colar de ouro de um dedo de grossura, charuto na mão e sob o guarda-chuva que um de seus auxiliares segurava e o acompanhava em todos os seus movimentos, evitando que um só pingo caísse na camisa ou nos óculos escuros do chefe, lá estava. Postado à beira do campo, na linha que divide o centro do gramado, falava mais que o próprio técnico.
Para o timinho da rua, já era uma vitória ter chegado às finais do torneio e, agora, era só armar um bom esquema defensivo para perder de pouco.
O jogo começou e se não fosse a lama, que provocava escorregões e quedas ridículas – inclusive do juiz – e o Serra Negra teria imposto uma considerável vantagem no primeiro tempo, que acabou zero-a-zero.
A partida já ia pela metade do segundo tempo, quando o goleiro Batista, que defendera tudo até ali, quebrou o dedo mínimo da mão direita, tendo sido levado imediatamente para o hospital, no carrão cedido pelo bicheiro. Um ar de desânimo tomou conta de todos, quando Titinho entrou em campo, vestido de preto, após um grotesco aquecimento.
Reiniciada a partida e para alívio dos rapazes do time da rua, o Serra Negra arrefeceu um pouco, dando tempo para que respirassem. Mas aos trinta e cinco minutos, ouve-se um grito. A voz grave de Bocão anunciava: “Tá na hora, gente... Todo mundo pra frente!
Ali começava um intenso bombardeio contra o gol de Titinho. Felizmente a pontaria dos atacantes do Serra Negra não estava boa e as bolas que chegavam até ele, eram fracas, amortecidas pelas poças d’água ou atrasadas por seus próprios defensores.
Faltando menos de cinco minutos para o final, o centro-avante dribla dois zagueiros e parte com a bola dominada na direção do gol de Titinho.
- Sai, vai nele!
O rapaz, indeciso, finalmente resolveu sair de encontro ao adversário. Três ou quatro passos e escorrega na lama. Com a impulsão, sentiu seu corpo voando para a frente, enquanto o atacante enchia o pé. A torcida exultou. A bola explodiu no peito do goleiro e voltou para o meio do campo. Titinho, com o peito ardendo, voltou para o gol ouvindo um impropério de Bocão e gritos de “dá-lhe garoto”ou “beleza”dos companheiros. Pouco depois o jogo acabava e o resultado seria decidido na cobrança de pênaltis.
Cinco chutes para cada time. O primeiro a marcar foi o pessoal da rua. O Serra Negra empatou. Novo gol da meninada e outro empate do “Serra”. Aí deu-se o milagre. Após o terceiro gol de seu time, Titinho resolveu ficar imóvel no próximo chute, fazendo, apenas, o popular “golpe de vista”. Até ali sempre se atirara para o lado errado, chafurdando na lama. Que se danassem todos. Estava molhado até na alma e eles que fizessem o que bem entendessem. O tal centro-avante, aquele do chute forte, soltou seu petardo bem no centro do gol, na direção do peito de Titinho, que só ouviu o barulho e, novamente, a ardência do couro batendo na pele. Lá foi a bola, de novo, parar no meio do campo.
A meninada passou a acreditar na possibilidade de uma vitória, embora Titinho efusivamente festejado pelos companheiros, continuasse a repetir: “Foi pura sorte...”
Novo gol da turma da rua. Era uma questão de vida ou morte para o time de Bocão. Se errassem a próxima penalidade, o campeonato estaria perdido. Zunim, o “becão” do Serra Negra, ajeitou a bola e olhou para Titinho como se dissesse: “Quero ver se agarra essa...” Tomou uma grande distância e partiu. O goleiro, naqueles poucos segundos, pensou: “Finjo que vou para a esquerda e me atiro para a direita”. Só não contava que a lama fizesse seu pé falsear e o fingimento tornar-se real, fazendo-o cair para a esquerda. Um salto, diríamos, milimétrico, mas o suficiente para a bola ficar presa entre seu corpo e o chão. Sua equipe ganhara o torneio graças a ele.
Foi carregado em triunfo e recebeu uma medalha a mais, como o “jogador revelação do campeonato”. Lá pelas tantas, um sujeito entregou-lhe um cartão:
- Se quiser fazer testes num time grande, é só me procurar... Você tem futuro, garoto.
Agora Titinho tinha uma história com comprovantes: medalhas, fotografias e troféu. Nunca mais pediu para jogar, embora sempre convidado. Não queria quebrar o encanto daquele momento glorioso que, sabia, jamais iria se repetir.
Assim, sempre que podia, contava a história para o primeiro desavisado que aparecesse, sem esquecer dos mínimos detalhes de tudo o que acontecera, concluindo sempre com a tradicional “modéstia”:
- Sei lá... Acho que tudo foi pura sorte...
Era um chato.
Titinho, cujo nome de batismo era Alberto e ninguém sabia onde e quando surgira o tal apelido, sempre foi o melhor aluno da turma. Do primário ao vestibular sempre ostentando medalhas douradas, distinção dada aos mais aplicados. Passou para a faculdade de engenharia no primeiro lugar, o que lhe rendeu entrevistas nos rádios e jornais da cidade. Respondia a todos com a mesma falsa modéstia: “Sei lá... Acho que foi pura sorte”. Noites de sono perdidas, exercícios exaustivamente repetidos, livros lidos e relidos e, no final, “pura sorte”. Além de “nerd” era um chato.
Falava com o rosto quase colado ao do ouvinte, muitas vezes obrigando a “vítima” a dar um ou dois passos para trás; arrumava o colarinho do uniforme dos colegas enquanto discorria sobre assuntos longos e sem qualquer interesse. Sua comida era escolhida com atenção pela mãe, já que detestava tudo que os outros familiares adoravam e por aí tocava sua vidinha sem sal.
Mas nos tempos de garoto, Titinho também tinha suas frustrações. Adorava futebol, mas só conseguia jogar quando a bola era dele. Fora isso, apenas se algum dos meninos saía mais cedo e, mesmo assim, era imediatamente deslocado para o gol, lugar nacionalmente guardado para aqueles cuja capacidade de jogar são consideradas nulas pelos demais atletas.
Chegava sempre em casa muito suado, jogando ou não, já que torcia contra os dois times, enquanto amargava a reserva.
Vez por outra, o time da rua disputava partidas em campos espalhados pelos bairros próximos. Na estação do Sampaio, naqueles tempos de um Rio de Janeiro menos explorado demograficamente, lá do outro lado da linha férrea, existia uma grande área onde os campos ficavam uns ao lado dos outros. Ali se pagava aluguel para usá-los e a garotada juntava as economias para participar da festa. Titinho sempre estava entre eles, mas via de regra, ocupava a posição de reserva do goleiro.
Aproveitando as férias escolares do meio do ano, havia um torneio entre as equipes de diversos bairros. Coisa chique, com os atletas uniformizados, de meias e chuteiras. Os juízes escalados pertenciam à Federação e, diziam, muitos olheiros de grandes clubes assistiam às partidas procurando identificar novos valores para o futebol carioca.
Havia, também, grande movimentação de familiares, principalmente nos jogos dos fins de semana, orgulhosos pela participação de seus filhos, sobrinhos e netos queridos. Afinal, eram eles quase sempre os financiadores dos uniformes, aluguel dos campos e, até, do lucro que ia para o bolso de alguém.
Aquele mês de julho tinha sido particularmente desagradável. Choveu muito e o frio fora exagerado para os padrões cariocas. Se os moradores da cidade do Rio de Janeiro já se agasalham com temperaturas abaixo dos vinte e poucos graus, imaginem com os termômetros marcando inusuais quatorze, quinze graus. Só faltavam surgir botas para neve e os esquis. E foi sob esse clima que transcorreu o campeonato.
O time da velha rua, se não era o pior também não poderia ser colocado entre as equipes que se destacavam, como às do Campo Grande e a do Serra Negra, sempre disputando entre si os primeiros lugares. As chuva e os campos enlameados, acabaram por nivelar “por baixo” as disputas e, assim, a equipe de Titinho, reserva do goleiro, foi indo. A semifinal contra o Campo Grande terminou com o escore de um a zero surpreendente, colocando a turma da rua para enfrentar o Serra Negra, que encaçapara seis gols no último adversário, na final a ser realizada no domingo seguinte.
Todos sabiam que o Serra Negra era uma equipe organizada por um bicheiro lá dos lados da subida da Serra de Petrópolis e que tinha, até, treinador remunerado. Segundo as más línguas, os jogadores também recebiam uma “ajuda de custo” e, dali, já tinham saído craques para os times da primeira divisão. Para aquele jogo, Bocão, o tal bicheiro, estabeleceu concentração. Alugou um sítio pelas bandas de Xerém e lá ficaram os componentes da equipe, incluindo o próprio Bocão, figura pouco presente nos treinamentos, embora mantendo sempre por perto um de seus homens de confiança.
Finalmente chegou o domingo que, para variar, estava chuvoso e com um vento frio soprando forte, principalmente no descampado formado pelo conjunto de praças esportivas do Sampaio. A torcida do Serra Negra lotou um ônibus, enquanto os familiares do time de Titinho, postavam-se do outro lado do campo, intimidados pelas bandeiras e ferozes gritos de guerra da torcida adversária. Bocão, com o tradicional colar de ouro de um dedo de grossura, charuto na mão e sob o guarda-chuva que um de seus auxiliares segurava e o acompanhava em todos os seus movimentos, evitando que um só pingo caísse na camisa ou nos óculos escuros do chefe, lá estava. Postado à beira do campo, na linha que divide o centro do gramado, falava mais que o próprio técnico.
Para o timinho da rua, já era uma vitória ter chegado às finais do torneio e, agora, era só armar um bom esquema defensivo para perder de pouco.
O jogo começou e se não fosse a lama, que provocava escorregões e quedas ridículas – inclusive do juiz – e o Serra Negra teria imposto uma considerável vantagem no primeiro tempo, que acabou zero-a-zero.
A partida já ia pela metade do segundo tempo, quando o goleiro Batista, que defendera tudo até ali, quebrou o dedo mínimo da mão direita, tendo sido levado imediatamente para o hospital, no carrão cedido pelo bicheiro. Um ar de desânimo tomou conta de todos, quando Titinho entrou em campo, vestido de preto, após um grotesco aquecimento.
Reiniciada a partida e para alívio dos rapazes do time da rua, o Serra Negra arrefeceu um pouco, dando tempo para que respirassem. Mas aos trinta e cinco minutos, ouve-se um grito. A voz grave de Bocão anunciava: “Tá na hora, gente... Todo mundo pra frente!
Ali começava um intenso bombardeio contra o gol de Titinho. Felizmente a pontaria dos atacantes do Serra Negra não estava boa e as bolas que chegavam até ele, eram fracas, amortecidas pelas poças d’água ou atrasadas por seus próprios defensores.
Faltando menos de cinco minutos para o final, o centro-avante dribla dois zagueiros e parte com a bola dominada na direção do gol de Titinho.
- Sai, vai nele!
O rapaz, indeciso, finalmente resolveu sair de encontro ao adversário. Três ou quatro passos e escorrega na lama. Com a impulsão, sentiu seu corpo voando para a frente, enquanto o atacante enchia o pé. A torcida exultou. A bola explodiu no peito do goleiro e voltou para o meio do campo. Titinho, com o peito ardendo, voltou para o gol ouvindo um impropério de Bocão e gritos de “dá-lhe garoto”ou “beleza”dos companheiros. Pouco depois o jogo acabava e o resultado seria decidido na cobrança de pênaltis.
Cinco chutes para cada time. O primeiro a marcar foi o pessoal da rua. O Serra Negra empatou. Novo gol da meninada e outro empate do “Serra”. Aí deu-se o milagre. Após o terceiro gol de seu time, Titinho resolveu ficar imóvel no próximo chute, fazendo, apenas, o popular “golpe de vista”. Até ali sempre se atirara para o lado errado, chafurdando na lama. Que se danassem todos. Estava molhado até na alma e eles que fizessem o que bem entendessem. O tal centro-avante, aquele do chute forte, soltou seu petardo bem no centro do gol, na direção do peito de Titinho, que só ouviu o barulho e, novamente, a ardência do couro batendo na pele. Lá foi a bola, de novo, parar no meio do campo.
A meninada passou a acreditar na possibilidade de uma vitória, embora Titinho efusivamente festejado pelos companheiros, continuasse a repetir: “Foi pura sorte...”
Novo gol da turma da rua. Era uma questão de vida ou morte para o time de Bocão. Se errassem a próxima penalidade, o campeonato estaria perdido. Zunim, o “becão” do Serra Negra, ajeitou a bola e olhou para Titinho como se dissesse: “Quero ver se agarra essa...” Tomou uma grande distância e partiu. O goleiro, naqueles poucos segundos, pensou: “Finjo que vou para a esquerda e me atiro para a direita”. Só não contava que a lama fizesse seu pé falsear e o fingimento tornar-se real, fazendo-o cair para a esquerda. Um salto, diríamos, milimétrico, mas o suficiente para a bola ficar presa entre seu corpo e o chão. Sua equipe ganhara o torneio graças a ele.
Foi carregado em triunfo e recebeu uma medalha a mais, como o “jogador revelação do campeonato”. Lá pelas tantas, um sujeito entregou-lhe um cartão:
- Se quiser fazer testes num time grande, é só me procurar... Você tem futuro, garoto.
Agora Titinho tinha uma história com comprovantes: medalhas, fotografias e troféu. Nunca mais pediu para jogar, embora sempre convidado. Não queria quebrar o encanto daquele momento glorioso que, sabia, jamais iria se repetir.
Assim, sempre que podia, contava a história para o primeiro desavisado que aparecesse, sem esquecer dos mínimos detalhes de tudo o que acontecera, concluindo sempre com a tradicional “modéstia”:
- Sei lá... Acho que tudo foi pura sorte...
Era um chato.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
MEU BRASIL BRASILEIRO...
Existem ocasiões em que por mais dramática seja a situação, uma gargalhada pode amenizar a tensão reinante. Lembro-me de um velho conhecido que estava presente quando do incêndio num grande edifício comercial. No desespero de se verem livres das chamas, as escadas ficaram abarrotadas de gente em pânico. Eis que se ouve um grito:
“Peraí, não empurra porque minha marmita vai entornar...”
Houve breve silêncio, seguido de um murmúrio crescente, que se tornou uma gargalhada geral. A partir daquele momento, o terror diminuiu e em passos coordenados, a multidão começou a descer e todos alcançaram a rua.
Botequins guardam vastíssimo corolário de frases e verdades aleatoriamente ditas. Num deles, havia um quadro pendurado na parede azulejada, onde se lia:
“Aqui, após a terceira dose, todos os problemas do país são resolvidos.”
Um bêbado, desafiando a lei da gravidade e equilibrando o corpo para trás num ângulo de quase quarenta e cinco graus, na porta de um desses “estabelecimentos”, declarava em alto e arrastado som:
- O Brasil tem como exportar eternamente, jogadores de futebol e gente corrupta.
Engraçado? Talvez, mas verdadeiro. Quanto aos quase garotos, agora identificado por “olheiros” do futebol europeu nos campos de várzea interioranos, nada a acrescentar. Cada vez mais vemos e ouvimos falar de figuras e nomes desconhecidos brilhando no Velho Continente, muitos já naturalizados e podendo disputar campeonatos pelas seleções dos países que os adotaram.
E quanto à gente corrupta? Depois de anões, mensalões, sanguessugas e quantas outras denominações dadas aos escândalos políticos dos últimos tempos, podemos encarar de forma mais séria a afirmação do bebum.
Um velho político afirmou em conversa informal da qual meus ouvidos participavam, estar a corrupção de tal forma enredada no poder público, que se puxarmos um fio da “teia”, digamos, numa estatal, poderemos fazer “desabar” um Ministério lá do outro lado da praça dos ditos cujos em Brasília, que nada teria a ver com a função da tal estatal.
Somos um país que tem a corrupção em seus alicerces. Se o Bispo Sardinha, aquele literalmente comido pelos índios, acumulou fortuna cobrando dobrões de ouro para absolver os pecados dos que podiam, pagar, ainda nos primórdios do nosso Brasil varonil, o que não imaginar dos que administram fortunas em investimentos governamentais? Esse é um assunto que poderia encher páginas, nada mais surpreendendo ao sonolento leitor, infelizmente já acostumado com isso.
Difícil acabar com a corrupção? Muito, já que se não for um movimento de grande parte da sociedade, haverá sempre a possibilidade da ação coerciva de autoridades desonestas, pulverizando os que levantaram suas vozes. Exemplo? Lá vai:
- Um empresário forçou o flagrante do pagamento de propina a determinado fiscal. Jornais e TVs mostraram a notícia. Passado menos de um mês, TODOS os órgãos fiscalizadores municipais, estaduais e federais, se abateram sobre o honesto e otário empresário que até hoje, briga na Justiça contestando a chuva de multas arbitrárias daquela época.
E lá vamos nós elegendo novos mandatários sem saber se, um dia, alguém com uma piada igual a do rapaz descendo do prédio em chamas, provoque uma reorganização social espontânea que acabe com esse tenso e vergonhoso estado de coisas.
“Peraí, não empurra porque minha marmita vai entornar...”
Houve breve silêncio, seguido de um murmúrio crescente, que se tornou uma gargalhada geral. A partir daquele momento, o terror diminuiu e em passos coordenados, a multidão começou a descer e todos alcançaram a rua.
Botequins guardam vastíssimo corolário de frases e verdades aleatoriamente ditas. Num deles, havia um quadro pendurado na parede azulejada, onde se lia:
“Aqui, após a terceira dose, todos os problemas do país são resolvidos.”
Um bêbado, desafiando a lei da gravidade e equilibrando o corpo para trás num ângulo de quase quarenta e cinco graus, na porta de um desses “estabelecimentos”, declarava em alto e arrastado som:
- O Brasil tem como exportar eternamente, jogadores de futebol e gente corrupta.
Engraçado? Talvez, mas verdadeiro. Quanto aos quase garotos, agora identificado por “olheiros” do futebol europeu nos campos de várzea interioranos, nada a acrescentar. Cada vez mais vemos e ouvimos falar de figuras e nomes desconhecidos brilhando no Velho Continente, muitos já naturalizados e podendo disputar campeonatos pelas seleções dos países que os adotaram.
E quanto à gente corrupta? Depois de anões, mensalões, sanguessugas e quantas outras denominações dadas aos escândalos políticos dos últimos tempos, podemos encarar de forma mais séria a afirmação do bebum.
Um velho político afirmou em conversa informal da qual meus ouvidos participavam, estar a corrupção de tal forma enredada no poder público, que se puxarmos um fio da “teia”, digamos, numa estatal, poderemos fazer “desabar” um Ministério lá do outro lado da praça dos ditos cujos em Brasília, que nada teria a ver com a função da tal estatal.
Somos um país que tem a corrupção em seus alicerces. Se o Bispo Sardinha, aquele literalmente comido pelos índios, acumulou fortuna cobrando dobrões de ouro para absolver os pecados dos que podiam, pagar, ainda nos primórdios do nosso Brasil varonil, o que não imaginar dos que administram fortunas em investimentos governamentais? Esse é um assunto que poderia encher páginas, nada mais surpreendendo ao sonolento leitor, infelizmente já acostumado com isso.
Difícil acabar com a corrupção? Muito, já que se não for um movimento de grande parte da sociedade, haverá sempre a possibilidade da ação coerciva de autoridades desonestas, pulverizando os que levantaram suas vozes. Exemplo? Lá vai:
- Um empresário forçou o flagrante do pagamento de propina a determinado fiscal. Jornais e TVs mostraram a notícia. Passado menos de um mês, TODOS os órgãos fiscalizadores municipais, estaduais e federais, se abateram sobre o honesto e otário empresário que até hoje, briga na Justiça contestando a chuva de multas arbitrárias daquela época.
E lá vamos nós elegendo novos mandatários sem saber se, um dia, alguém com uma piada igual a do rapaz descendo do prédio em chamas, provoque uma reorganização social espontânea que acabe com esse tenso e vergonhoso estado de coisas.
domingo, 21 de setembro de 2008
SETEMBRO FRIORENTO
Setembro quase no final, com frio e chuva pouco usuais nessa época do ano. Frentes frias infladas pela umidade vinda da selva amazônica e temperada por um mar com águas quentes. Segundo os entendidos, a mistura de jacaré com cobra d´água responsável por essa bagunça no tempo.
Aproveitam os profetas do apocalipse para declarar tais desarranjos climáticos como mais um sinal das hecatombes que nos esperam até que cheguemos na primeira esquina do ano de 2012, apontado pela equalização dos calendários maias, astecas, egípcios, fenícios & Cia. Ltda., como o ano que todos indicam ser o último da era humana na face da Terra.
Curioso, verdadeiro, fantasioso... Sei lá e não vou me preocupar com esse final dos tempos, se uma bala perdida ou um avião com o reverso travado, não deixar que chegue vivo até lá para saber se vai ou não acontecer.
Daí que uma sonora gargalhada na frente de um chope gelado e da porção de fritas quentinhas, faz com que nos esqueçamos dessas tolices, desde que, é claro, o calor volte a enfeitiçar as noites e provocar justas reclamações, entre um gole e outro.
Por enquanto, frio e caldo verde. Que chatice.
Aproveitam os profetas do apocalipse para declarar tais desarranjos climáticos como mais um sinal das hecatombes que nos esperam até que cheguemos na primeira esquina do ano de 2012, apontado pela equalização dos calendários maias, astecas, egípcios, fenícios & Cia. Ltda., como o ano que todos indicam ser o último da era humana na face da Terra.
Curioso, verdadeiro, fantasioso... Sei lá e não vou me preocupar com esse final dos tempos, se uma bala perdida ou um avião com o reverso travado, não deixar que chegue vivo até lá para saber se vai ou não acontecer.
Daí que uma sonora gargalhada na frente de um chope gelado e da porção de fritas quentinhas, faz com que nos esqueçamos dessas tolices, desde que, é claro, o calor volte a enfeitiçar as noites e provocar justas reclamações, entre um gole e outro.
Por enquanto, frio e caldo verde. Que chatice.
domingo, 31 de agosto de 2008
CAMINHADA
E lá se vai outro dia, com poucas modificações nos acontecimentos do ontem. A tarde começa a ensaiar a viagem do sol, pintando perto do horizonte as nuvens cinzas com um vermelho vivo.
Ignoro o vento frio vindo do mar e continuo minha caminhada em direção à coisa nenhuma, que deve ficar ali por volta do princípio do Leme. Esse negócio de andar como exercício, se não fizer bem ao corpo o faz para a mente. Esqueço os problemas e se me perguntarem o que penso enquanto ando, certamente não saberei responder.
Vai daí que entre um atlético corredor e uma velhinha dentro da malha vermelha contrastando com seus cabelos – e tênis – brancos, vou chegando ao final da caminhada. Cansado? Nem tanto. Um pouco frustrado, talvez, pela juventude que se foi, mas é lembrada a todo instante pelos que passam – ou ficam – pelo caminho.
Atravesso a rua e volto para casa, onde a vida retornará ao seu rumo, até que nova caminhada se inicie.
Ignoro o vento frio vindo do mar e continuo minha caminhada em direção à coisa nenhuma, que deve ficar ali por volta do princípio do Leme. Esse negócio de andar como exercício, se não fizer bem ao corpo o faz para a mente. Esqueço os problemas e se me perguntarem o que penso enquanto ando, certamente não saberei responder.
Vai daí que entre um atlético corredor e uma velhinha dentro da malha vermelha contrastando com seus cabelos – e tênis – brancos, vou chegando ao final da caminhada. Cansado? Nem tanto. Um pouco frustrado, talvez, pela juventude que se foi, mas é lembrada a todo instante pelos que passam – ou ficam – pelo caminho.
Atravesso a rua e volto para casa, onde a vida retornará ao seu rumo, até que nova caminhada se inicie.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
NADA A DECLARAR
Em parceria com Vanessa Peiró Correia
(vancorreia.blogspot.com)
Nada a Declarar.
Reticências, pontos parágrafos ou não, nuvens pesadas que irão desabar sei-lá-aonde, trazendo risos ou choros aos mais necessitados.
Nada a declarar.
Crianças descalças, lavando os pés na água da sarjeta, enquanto mendigos exclamam frases sábias que os livrem de banhos desgastantes.
Nada a Declarar.
Businas acordam os de andares mais baixos e avisam se iniciar um dia de trabalho ou o marasmo para uma população neurótica, caótica, apostólica, mas que acredita em espíritos, cujos divans dos psicanalistas encheria caso houvesse dinheiro para isso.
Nada a Declarar.
Nossos atletas voltando do Cubo D’Água, com poucas medalhas, mas com muita vontade de cometer grandes pecados intitulados de carboidratos, gorduras saturadas e afins.
Nada a Declarar
Serginho Malandro, candidato a vereador, assim como Havanir, dermatologista e mestra em Photoshop, exibindo seu rosto impecável em website produzido para sua eleição, da mesma forma que os sanguessugas processados, mas liberados pelo Supremo para continuarem a perpetuar a desonestidade em nome de um povo maltrapilho e ignorante.
Nada a Declarar.
Balas perdidas que encontram cabeças, peitos; risos bêbados que encharcam as madrugadas com a tolerância zero da lei que não se sabe se vai pegar... Pega o ladrão, o ônibus, a vizinha bonita, o caixote na feira... Pega o bonde da vida e toca em frente.
Nada a Declarar...
Dercy Gonçalves chegando ao céu, perdida sem seus palavrões e decepcionando anjos e querubins, ávidos pela libertinagem e devassidão que só conhecem das lendas..
Nádegas a Declarar..
.
(vancorreia.blogspot.com)
Nada a Declarar.
Reticências, pontos parágrafos ou não, nuvens pesadas que irão desabar sei-lá-aonde, trazendo risos ou choros aos mais necessitados.
Nada a declarar.
Crianças descalças, lavando os pés na água da sarjeta, enquanto mendigos exclamam frases sábias que os livrem de banhos desgastantes.
Nada a Declarar.
Businas acordam os de andares mais baixos e avisam se iniciar um dia de trabalho ou o marasmo para uma população neurótica, caótica, apostólica, mas que acredita em espíritos, cujos divans dos psicanalistas encheria caso houvesse dinheiro para isso.
Nada a Declarar.
Nossos atletas voltando do Cubo D’Água, com poucas medalhas, mas com muita vontade de cometer grandes pecados intitulados de carboidratos, gorduras saturadas e afins.
Nada a Declarar
Serginho Malandro, candidato a vereador, assim como Havanir, dermatologista e mestra em Photoshop, exibindo seu rosto impecável em website produzido para sua eleição, da mesma forma que os sanguessugas processados, mas liberados pelo Supremo para continuarem a perpetuar a desonestidade em nome de um povo maltrapilho e ignorante.
Nada a Declarar.
Balas perdidas que encontram cabeças, peitos; risos bêbados que encharcam as madrugadas com a tolerância zero da lei que não se sabe se vai pegar... Pega o ladrão, o ônibus, a vizinha bonita, o caixote na feira... Pega o bonde da vida e toca em frente.
Nada a Declarar...
Dercy Gonçalves chegando ao céu, perdida sem seus palavrões e decepcionando anjos e querubins, ávidos pela libertinagem e devassidão que só conhecem das lendas..
Nádegas a Declarar..
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terça-feira, 19 de agosto de 2008
O BRUXO
A casa ficava vinte e cinco degraus acima do nível da rua. Era modesta, com cinco cômodos que abrigavam os pais, a irmã e ele. Tinha um grande terreno à sua volta e as árvores no fundo do quintal deveriam ser convite a estripulias só não levadas em frente, pela falta de companhia.
Otaviano era um menino só. A mãe não permitia que descesse para brincar com as crianças na rua e nenhum moleque se aventurava a subir a escadaria. Supria a falta de amigos com sua imaginação fértil. Fazia bonecos de papel retorcido, que podiam ser “cowboys” ou bandidos nas aventuras engendradas; as armas utilizadas pelos personagens, eram pequenos pedaços de arame que faziam as vezes de revólveres, espingardas ou espadas, de acordo com as exigências da história.
Otaviano cresceu e durante a vida escolar, sempre foi um aluno mediano e quando aprovado no vestibular para uma faculdade pública de medicina, surpreendeu a todos. O pai fazia o impossível, mas os livros e materiais caríssimos exigidos pelo curso, obrigaram o rapaz a dar aulas de matemática, física e química para alunos do curso médio em dificuldades com aquelas matérias, ajudando nas despesas trazidas pela faculdade. O sucesso foi tanto, que passou a substituir um amigo, professor de pré-vestibular, quando este precisava faltar.
Conseguiu a residência médica graças a um colega, filho de político famoso, que sugeriu seu nome para a vaga recebida de presente, face ao desinteresse em “viajar” até aquele hospital suburbano. Depois de muitas suturas, partos e colocação de ossos em seus devidos lugares, viu-se médico. Alugou um sobrado próximo de casa e começou atendendo os clientes que pouco a pouco surgiam, além dos chamados noturnos onde as famílias com certa habitualidade, não tinham sequer como pagá-lo e ele ainda as ajudava dando amostras grátis dos remédios receitados, recebidas dos representantes de laboratórios que o visitavam.
Seu jeito carinhoso e brincalhão, cativava mais clientes e chegou o momento em que assumiu as despesas da casa, aliviando o orçamento dos “velhos” e até conseguiu comprar um carro de segunda mão. Tinha uma vida razoavelmente tranqüila, onde as moças surgiam e desapareciam para alívio do pai e preocupação da mãe, interessadíssima em vê-lo dando-lhe um neto, já que a irmã casara e viajara para o fim do mundo, em companhia do marido, engenheiro de barragens.
Certa manhã, enquanto tomava seu café, a velha empregada que o conhecia desde menino, quando ainda trabalhava para outra família vizinha, o interpelou:
- Tavinho, é verdade que você é espírita?
O rapaz surpreendeu-se e rapidamente passou por sua mente a divertida história ocorrida no passado, quando convencido por um colega foi visitar uma Casa Espírita. Lá para as tantas, a mulher sentada ao seu lado “manifestou um espírito” e deu sonora gargalhada. O susto foi tamanho que quase foi parar no colo do amigo.
- Quem... Eu?
- Estão dizendo por aí que você já sabe até qual a doença do paciente, mesmo antes dele sentar na sua frente; que distribui remédios de graça... Eu, heim, se continuar assim nunca vai ficar rico...
A última frase já foi dita como se pensasse alto, enquanto Otaviano rumava em direção ao sobrado ainda comendo um biscoito. No caminho, surgiu-lhe a idéia. Iria testá-la, só por divertimento, nos seus clientes daquele dia e aguardar se haveria alguma reação.
Quando o primeiro consulente entrou na sua sala, encontrou-o com os olhos fechados e as mãos apoiando a testa. Com um gesto quase teatral, mandou que a “vítima” sentasse, abaixou os braços cruzando as mãos e olhando fixamente para o desconfiado cliente. Com voz pausada e tranqüila, descreveu todo o quadro clínico, os remédios tomados e até os efeitos colaterais eventualmente atribuídos aos mesmos. Evidente que tudo constava da ficha médica e fora minuciosamente examinado antes da entrada do pobre coitado. E assim procedeu durante o resto do dia. Com aqueles que o visitavam pela primeira vez, deixava que contassem o motivo da ida até ali e caso fosse comentado alguma coisa sobre os remédios eventualmente receitados por outro médico, lá vinha a mesma cantilena dos efeitos colaterais que poderiam estar sentindo. Segundo seus cálculos, o índice de acerto chegou próximo aos oitenta e cinco por cento e, por isso, resolveu continuar com a brincadeira.
Teve de contratar mais uma recepcionista e em pouco tempo comprava novo conjunto de salas em bairro mais condizente com o padrão dos novos clientes que começaram a procurá-lo em grande número. Deixou de ser apenas o médico para se tornar um orientador, guru e até bruxo, já que continuava a medicar os que necessitavam de seus trabalhos. Aprendeu a ouvir mais e manter silêncio em momentos onde era esperado seu pronunciamento. Frases de efeito como: “ Dê tempo ao tempo e tudo ficará mais fácil de se resolver...” eram usadas e absorvidas pelos que o cercavam, como se fossem gotas de sabedoria.
Cada vez era mais procurado, porém não se sentia feliz. Passara a ser vítima da própria armadilha, porém ganhava muito dinheiro com isso. Seu novo apartamento de frente para o mar e decorado por nomes famosos, servia de abrigo para noites mal dormidas onde procurava uma solução que acabasse com aquela depressão. E ela não se fez esperar. Certa tarde recebeu a visita de um representante da Justiça, que lhe trazia a intimação onde havia denúncia de “exercício ilegal da medicina”. Compareceu à Delegacia Policial acompanhado por dois famosos advogados e ali provou ser médico registrado e apto a dar consultas e prescrever medicações.
Os jornais noticiaram o fato, o Conselho Regional de Medicina fez uma sessão em desagravo ao médico injuriosamente constrangido e... Os clientes desapareceram. Acabara o encanto. Afinal ser consultado por um médico qualquer um podia, mas a graça era em ter um bruxo como conselheiro e cujas receitas fossem consideradas “beberagens” por aquela pequena multidão de novos ricos...
Tinha se resolvido o problema que o acompanhava. É claro que as dadivosas fontes de renda secaram, mas o que ganhara permitia tocar a vida sem maiores preocupações. Foi assim que semanas mais tarde, vendia as suntuosas instalações do consultório e reabria o velho sobrado suburbano, onde, feliz, brincalhão e sem quaisquer “disfarces”, observou os antigos clientes voltando.
Se concluíra um ciclo de vida, não podia afirmar, mas não tinha mais qualquer sonho de grandeza que o levasse além daquilo para o qual se preparara por tantos anos. Ser Médico.
Otaviano era um menino só. A mãe não permitia que descesse para brincar com as crianças na rua e nenhum moleque se aventurava a subir a escadaria. Supria a falta de amigos com sua imaginação fértil. Fazia bonecos de papel retorcido, que podiam ser “cowboys” ou bandidos nas aventuras engendradas; as armas utilizadas pelos personagens, eram pequenos pedaços de arame que faziam as vezes de revólveres, espingardas ou espadas, de acordo com as exigências da história.
Otaviano cresceu e durante a vida escolar, sempre foi um aluno mediano e quando aprovado no vestibular para uma faculdade pública de medicina, surpreendeu a todos. O pai fazia o impossível, mas os livros e materiais caríssimos exigidos pelo curso, obrigaram o rapaz a dar aulas de matemática, física e química para alunos do curso médio em dificuldades com aquelas matérias, ajudando nas despesas trazidas pela faculdade. O sucesso foi tanto, que passou a substituir um amigo, professor de pré-vestibular, quando este precisava faltar.
Conseguiu a residência médica graças a um colega, filho de político famoso, que sugeriu seu nome para a vaga recebida de presente, face ao desinteresse em “viajar” até aquele hospital suburbano. Depois de muitas suturas, partos e colocação de ossos em seus devidos lugares, viu-se médico. Alugou um sobrado próximo de casa e começou atendendo os clientes que pouco a pouco surgiam, além dos chamados noturnos onde as famílias com certa habitualidade, não tinham sequer como pagá-lo e ele ainda as ajudava dando amostras grátis dos remédios receitados, recebidas dos representantes de laboratórios que o visitavam.
Seu jeito carinhoso e brincalhão, cativava mais clientes e chegou o momento em que assumiu as despesas da casa, aliviando o orçamento dos “velhos” e até conseguiu comprar um carro de segunda mão. Tinha uma vida razoavelmente tranqüila, onde as moças surgiam e desapareciam para alívio do pai e preocupação da mãe, interessadíssima em vê-lo dando-lhe um neto, já que a irmã casara e viajara para o fim do mundo, em companhia do marido, engenheiro de barragens.
Certa manhã, enquanto tomava seu café, a velha empregada que o conhecia desde menino, quando ainda trabalhava para outra família vizinha, o interpelou:
- Tavinho, é verdade que você é espírita?
O rapaz surpreendeu-se e rapidamente passou por sua mente a divertida história ocorrida no passado, quando convencido por um colega foi visitar uma Casa Espírita. Lá para as tantas, a mulher sentada ao seu lado “manifestou um espírito” e deu sonora gargalhada. O susto foi tamanho que quase foi parar no colo do amigo.
- Quem... Eu?
- Estão dizendo por aí que você já sabe até qual a doença do paciente, mesmo antes dele sentar na sua frente; que distribui remédios de graça... Eu, heim, se continuar assim nunca vai ficar rico...
A última frase já foi dita como se pensasse alto, enquanto Otaviano rumava em direção ao sobrado ainda comendo um biscoito. No caminho, surgiu-lhe a idéia. Iria testá-la, só por divertimento, nos seus clientes daquele dia e aguardar se haveria alguma reação.
Quando o primeiro consulente entrou na sua sala, encontrou-o com os olhos fechados e as mãos apoiando a testa. Com um gesto quase teatral, mandou que a “vítima” sentasse, abaixou os braços cruzando as mãos e olhando fixamente para o desconfiado cliente. Com voz pausada e tranqüila, descreveu todo o quadro clínico, os remédios tomados e até os efeitos colaterais eventualmente atribuídos aos mesmos. Evidente que tudo constava da ficha médica e fora minuciosamente examinado antes da entrada do pobre coitado. E assim procedeu durante o resto do dia. Com aqueles que o visitavam pela primeira vez, deixava que contassem o motivo da ida até ali e caso fosse comentado alguma coisa sobre os remédios eventualmente receitados por outro médico, lá vinha a mesma cantilena dos efeitos colaterais que poderiam estar sentindo. Segundo seus cálculos, o índice de acerto chegou próximo aos oitenta e cinco por cento e, por isso, resolveu continuar com a brincadeira.
Teve de contratar mais uma recepcionista e em pouco tempo comprava novo conjunto de salas em bairro mais condizente com o padrão dos novos clientes que começaram a procurá-lo em grande número. Deixou de ser apenas o médico para se tornar um orientador, guru e até bruxo, já que continuava a medicar os que necessitavam de seus trabalhos. Aprendeu a ouvir mais e manter silêncio em momentos onde era esperado seu pronunciamento. Frases de efeito como: “ Dê tempo ao tempo e tudo ficará mais fácil de se resolver...” eram usadas e absorvidas pelos que o cercavam, como se fossem gotas de sabedoria.
Cada vez era mais procurado, porém não se sentia feliz. Passara a ser vítima da própria armadilha, porém ganhava muito dinheiro com isso. Seu novo apartamento de frente para o mar e decorado por nomes famosos, servia de abrigo para noites mal dormidas onde procurava uma solução que acabasse com aquela depressão. E ela não se fez esperar. Certa tarde recebeu a visita de um representante da Justiça, que lhe trazia a intimação onde havia denúncia de “exercício ilegal da medicina”. Compareceu à Delegacia Policial acompanhado por dois famosos advogados e ali provou ser médico registrado e apto a dar consultas e prescrever medicações.
Os jornais noticiaram o fato, o Conselho Regional de Medicina fez uma sessão em desagravo ao médico injuriosamente constrangido e... Os clientes desapareceram. Acabara o encanto. Afinal ser consultado por um médico qualquer um podia, mas a graça era em ter um bruxo como conselheiro e cujas receitas fossem consideradas “beberagens” por aquela pequena multidão de novos ricos...
Tinha se resolvido o problema que o acompanhava. É claro que as dadivosas fontes de renda secaram, mas o que ganhara permitia tocar a vida sem maiores preocupações. Foi assim que semanas mais tarde, vendia as suntuosas instalações do consultório e reabria o velho sobrado suburbano, onde, feliz, brincalhão e sem quaisquer “disfarces”, observou os antigos clientes voltando.
Se concluíra um ciclo de vida, não podia afirmar, mas não tinha mais qualquer sonho de grandeza que o levasse além daquilo para o qual se preparara por tantos anos. Ser Médico.
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